Medidas de isolamento: porque elas são importantes e como funcionam

Crianças e o coronavírus-3

Especialistas acreditam que esta é a pior crise de saúde pública das últimas gerações. Por ser uma situação, até certo ponto, inédita, fica difícil termos certeza de quais as melhores medidas a serem tomadas. Uma revisão realizada pelo grupo de Medicina Baseada em Evidência da Universidade de Oxford, no Reino Unido, publicada ontem (https://www.cebm.net/wp-content/uploads/2020/03/What-is-the-evidence-for-social-distancing-during-global-pandemics-final-1.pdf ), pode nos ajudar a entender e aderir às medidas tomadas pelas autoridades até o momento.

As informações partem de duas publicações que revisaram medidas para conter a disseminação da pandemia de influenza, procurando entender o que funcionou e de que forma isso aconteceu, além de acrescentar informações específicas sobre a pandemia de COVID-19.

Dentre as medidas populacionais que já foram descritas em estudos para reduzir a transmissão, temos as seguintes:

  1. Isolamento de pessoas doentes: essa medida parece eficiente para reduzir a taxa de ataque, que é definida pelo número de pessoas afetadas por uma doença dentro de uma população exposta ao risco. Além disso, esse isolamento também parece atrasar o pico da epidemia. Um dos estudos mostrou que essa medida foi capaz de retardar o pico da epidemia em 83 dias. Portanto, essa medida faz muito sentido para conseguirmos o “achatamento da curva”, que tanto tem se falado. Uma vez atrasando esse pico, conseguimos ter o serviço de saúde melhor preparado para o atendimento dos casos graves.
  2. Busca de contatos: medida que parece ter benefícios, quando combinada a outras medidas de distanciamento social, mas é difícil de determinar o tamanho do seu impacto. Exige muitos recursos, que nem sempre estão disponíveis, e não se tem certeza da relação custo-benefício.
  3. Quarentena de pessoas expostas: com uma boa aderência da população (estimada em mais de 70%), parece ser uma medida efetiva para diminuir a velocidade da transmissão, a quantidade de casos que um serviço de saúde precisa enfrentar e a taxa de ataque. Os estudos alertam para os impactos secundários da medida, como os custos sociais e econômicos, bem como o risco de contaminação entre os indivíduos em quarentena.
  4. Fechamento de escolas: parece ser uma das medidas mais efetivas, mas não se sabe bem qual o melhor momento para iniciar e por quanto tempo deve durar. Há a preocupação também com o risco de aumento das infecções quando as escolas reabrirem. Novamente, fica o alerta para como lidar com o impacto das medidas em outras áreas: perda de renda dos pais, crianças sendo cuidadas por pessoas sem capacidade e sem receber merenda. Foi descrito também uma estimativa do custo de fechamento de escolas no Reino Unido, de 0,2 a 1,2 bilhões de libras.
  5. Mudanças no ambiente de trabalho: trabalhar de casa, prolongar feriados, mudanças nos horários de trabalho parecem reduzir a transmissão e o pico da epidemia, ainda que não se saiba exatamente o tamanho desse efeito. Novamente, fica o alerta para as perdas de renda e a necessidade de manter o fornecimento de artigos essenciais.
  6. Evitar multidões e restringir a movimentação de pessoas: indo de acordo com a lógica, alguns estudos mostram que evitar aglomerações parece benéfico, mas não conseguiram definir o que seria aglomeração. Parece haver correlação entre a duração dessa medida restritiva e a taxa de morte: quanto maior a duração, menos pessoas morreriam. Um modelo matemático mostrou que as aglomerações antes de um pico de epidemia poderiam aumentar esse pico em até 10%. Acredita-se que atrasos de até 1 semana e meia no pico da epidemia possam ocorrer com restrição de mobilidade em 50% ou mais, mas que se essas restrições não foram suficientes, como somente de 10%, podem até aumentar a taxa de ataque.

Modelos matemáticos de taxa de transmissão na Coreia do Sul mostraram que medidas preventivas como distanciamento social foram cruciais para reduzir a transmissão do vírus. A partir de modelos da China, estima-se que o início precoce e progressivo de medidas de distanciamento social é fundamental. Outro estudo de modelo matemático do Reino Unido reforça que o distanciamento social deve fazer parte das intervenções para conter a pandemia. Acredita-se que a combinação de isolamento de casos suspeitos, a quarentena para os contatos dos doentes e o distanciamento social de idosos e população de risco podem reduzir o pico de demanda dos serviços de saúde em 2/3 e o número de mortes pela metade. O principal contato que deve ser evitado é o de escolas e ambientes de trabalho, bares e restaurantes, pois o contato dura mais tempo e aumenta o risco de transmissão.

Infelizmente, é impossível as autoridades terem certeza de qual o melhor caminho seguir. Tempos de dúvida contribuem para o medo e a ansiedade. Não sabemos a dimensão das consequências em médio e longo prazo de tudo isso. A corda continuará arrebentando do lado mais fraco, mas mais rápido e mais bruscamente. Acredito que o melhor seja confiarmos que existe uma tentativa real de minimizar os riscos para toda a população e seguirmos as recomendações atuais das autoridades de saúde: ficar em casa quem pode, procurar serviços de saúde apenas em casos de urgência e emergência, seguir as recomendações de higiene e respeitar as indicações de isolamento e quarentena.

 

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