Cuidados com a pele do bebê

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Como cuidar da pele do bebê?

Quando médicos, como eu, especializam-se em Neonatologia, área que estuda os recém-nascidos, um dos lugares-comuns é ouvir como vivemos em um mundo a parte, pois os bebês possuem características particulares, que só ocorrem nessa fase da vida. Os cuidados com sua pele não fogem dessa regra. O bebê precisa, principalmente em seu primeiro mês, uma atenção especial a sua pele. A preocupação é também com o futuro: acredita-se que cuidados agressivos com a pele durante essa etapa possam aumentar o risco de desenvolvimento de dermatite atópica.

A pele, nosso maior órgão, tem um papel fundamental: age como barreira contra infecções e radiação, regula a temperatura corporal e é uma das formas de entrarmos em contato com o mundo. Ao nascermos, ela ainda precisa realizar a transição adequada entre uma vida aquática para um ambiente seco.

Quem ajuda bastante no início nessa etapa é o vérnix caseoso. O vérnix é uma camada branca de aspecto gorduroso, que lembra um pouco um queijo catupiry e cobre todo o corpo do feto a partir do 3º trimestre. Tem efeito antioxidante e lubrificante, reduz vermelhidões e perda de água pela pele, ajudando a mantê-la hidratada, além de conservar o pH da pele mais ácido, ajudando assim na proteção contra infecções. Acredita-se, inclusive, que o vérnix possa até ter papel na liberação de ferormônios, facilitando o vínculo entre mãe e bebê.

Sabendo de todos os benefícios da presença do vérnix caseoso no corpo do bebê, junto com a preocupação da manutenção de sua temperatura adequada e o estabelecimento de maior vínculo entre mãe e recém-nascido, a Organização Mundial de Saúde recomenda que o banho seja realizado apenas após as primeiras 6 horas de vida. No início desse ano, foi publicado um estudo que correlacionou atrasar o banho do bebê em 12 horas ou mais com maior taxa de aleitamento materno durante o período de internação, por motivos que vão desde manter a semelhança de cheiros para o bebê até maior tempo no contato pele-a-pele. Antes do banho do bebê, recomenda-se apenas secar gentilmente sua pele, para ajudar no controle da temperatura. Nesse processo, evita-se a remoção do vérnix aderido à pele. Existem alguns casos, no entanto, em que é necessário remover imediatamente sangue e secreções, como no caso de infecção pelo HIV, por exemplo. O primeiro banho pode ser apenas com água, como recomenda o consenso de dermatologistas e pediatras europeus, ou com agente de limpeza neutro.

E depois, em casa, como podemos cuidar da pele do bebê da melhor forma?

Banho:

Costumes quanto ao banho dependem muito da cultura de cada região. Pensando apenas nos cuidados com a pele do bebê, sabe-se que não é necessário mais que dois a três banhos por semana, considerando que as partes mais sujas do bebê, como rosto e região da fralda, são limpas mais que uma vez ao dia. Banhos mais frequentes podem, inclusive, levar a ressecamento da pele e alteração de sua flora natural.

O banho de banheira, com a água cobrindo até os ombros do bebê, é o tipo de banho melhor tolerado, quando comparado ao banho com esponjinhas ou com banhos que molhem o bebê por partes. A imersão na água até a altura dos ombros parece ser a forma mais confortável para o bebê, com menor variação de temperatura, e é mais prazerosa também para quem dá o banho. Envolver o bebê em uma toalha ou fralda e colocá-lo na banheira dessa forma parece deixa-lo mais calmo, quieto e com maior controle dos movimentos, trazendo uma maior sensação de segurança para o bebê. É só lembrar que o bebê até muito pouco tempo estava num ambiente líquido e bem delimitado pelo útero materno para entender que essa técnica faz sentido. Especialistas sugerem a duração do banho em torno de 5 minutos, para evitar estresse por frio e exposição excessiva aos agentes de limpeza.  É importante certificar-se de que a temperatura da água esteja uniforme (misture bem a água da banheira!) e em torno de 34 a 38°C. Lembrete extra de segurança: a banheira deve estar em uma superfície firme e nunca, jamais deixar o bebê sozinho na banheira.

Cordão umbilical:

Muitos cuidadores tem um medo danado de mexer no cordão umbilical, podendo até mesmo atrapalhar a sua higiene, levando a risco de infecção. A principal orientação para o cuidado com o cordão é deixa-lo limpo e seco, para fora da fralda, evitando assim excesso de umidade e possível contato com urina e fezes. A recomendação mais tradicional é aplicação de álcool 70% ou clorexidine, com algodão ou cotonete, até 4 vezes ao dia, com o cuidado de aplicar também na base do cordão. A evolução esperada do cordão umbilical é que ele vá ficando escuro, seco e caia por volta da 2ª semana de vida. Caso o cordão fique com mau cheiro, saída de pus ou com vermelhidão na pele ao redor, é necessário avaliação médica.

Hidratação:

Acredita-se que hidratar diariamente a pele do recém-nascido diminua o risco de dermatite atópica naqueles bebês que tem maior risco de evoluir com a doença (por exemplo, bebês cujos pais tenham a doença). Os hidratantes devem ser de pH neutro ou levemente ácido (de 5,5 a 7,0), sem fragrâncias (cheirinho de bebê não é bom para os bebês!) e sem preservativos. Dar preferência aos petrolatos, como vaselina e óleo mineral, óleo de girassol e de coco, parafina líquida e creme hipoalergênico. O melhor momento para hidratar a pele é após o banho. Continue lendo que falaremos mais sobre os produtos para usar nos bebês.

Área de fralda:

A exposição prolongada a fezes e urina altera o pH da pele. Quando a fralda ficar suja, trocá-la imediatamente e manter a área limpa e seca. Para limpar a urina, algodão com água morna é suficiente. Quando for fezes, melhor limpar com água e agente de limpeza, como os sabonetes brandos, neutros ou com pH levemente ácidos. Importante ter o cuidado de não esfregar a pele na hora de remover a sujeira, para não lesionar a sensível pele do bebê. Em cada troca de fralda, aplicar cremes à base de óxido de zinco ou petrolatos, como vaselina e óleo mineral. Os resquícios de cremes na hora de realizar nova troca de fralda não precisam ser removidos – esses cremes também são chamados de cremes de barreira, que acabam formando uma espécie de segunda pele, que ajuda a proteger da urina e das fezes. Os lenços umedecidos devem ser reservados para aqueles momentos em que é mais difícil trocar o bebê, quando se sai de casa, por exemplo. Se tiver que usar, escolher aqueles que não contenham em sua composição álcool, fragrância, sabão, óleos e detergentes.

Exposição solar:

A pele do recém-nascido não está completamente formada. Nessa idade, o sol traz risco aumentado de queimadura, imunossupressão, envelhecimento precoce e câncer de pele (já falamos um pouco sobre isso aqui). Evitar a exposição em excesso, preferindo sombras e roupas protetoras, já que até os 6 meses é recomendado não usar protetor solar.

Características dos produtos:

Os produtos destinados aos recém-nascidos devem ter algumas características especiais. Uma das principais é em relação ao pH: ele deve ser neutro ou levemente ácido (5,5 a 7,0), pois produtos com pH básico podem alterar o pH da pele, reduzindo assim sua propriedade antimicrobiana e aumentando a suscetibilidade para lesões mecânicas.

Ingredientes como sódio-lauril-sulfato e amônio laurel-sulfato são responsáveis por fazer espuma, mas também por danificar a barreira gordurosa da pele, causando irritação. Evite! Alguns ingredientes como betaína, lanolina, formaldeídos e derivados e metilcloroisotiazolinona (esta, inclusive, é proibida na Europa em produtos para área de fraldas) são bastante alergênicos e também devem ser evitados. Esses ingredientes são comuns principalmente em produtos mais baratos, portanto, vale sempre conferir o rótulo.

Parabenos são frequentes em loções, xampus e lenços umedecidos. Podem causar dermatite de contato e vermelhidão na pele. Também vale a pena evitar!

O propilenoglicol, quando em concentração maior que 5%, pode causar irritação e ardência na pele.

Os agentes de limpeza devem ser preferencialmente líquidos e suaves, sem sabão e sem fragrância. Não estão indicados os sabonetes antimicrobianos, como Protex e cia. A regra do pH também é fundamental aqui e vale também para os xampus. Como o reflexo de piscar é mais lento nos bebês, é importante que o produto não seja irritativo aos olhos.

Ingredientes naturais e orgânicos costumam ser mais seguros. Entretanto, pode haver dermatite de contato com produtos com aloe vera, arnica, calêndula e camomila.

Cuidar adequadamente da pele do bebê é mais uma maneira de expressar seu carinho e amor. Uma pele saudável não só evita infecções, feridas e alergias como também permite ao bebê sentir e descobrir o mundo a sua volta da melhor forma possível.

O texto foi embasado nos seguintes artigos:

  1. Ness, M. J., Davis, D. M. R., & Carey, W. A. (2013). Neonatal skin care: a concise review. International Journal of Dermatology, 52, 14–22.
  2. Visscher, M. O., Adam, R., Brink, S., & Odio, M. (2015). Newborn infant skin : Physiology , development , and care. Clinics in Dermatology, 33(3), 271–280. https://doi.org/10.1016/j.clindermatol.2014.12.003
  3. Najjar, Z., Oliveira, P. De, & Machado, M. C. R. (2011). Prevenção e cuidados com a pele da criança e do recém-nascido *. Anais Brasileiros de Dermatologia, 86(1), 102–110.
  4. Stewart, D., Benitz, W., & AAP COMITTEE ON FETUS AND NEWBORN. (2016). Umbilical Cord Care in the Newborn Infant. Pediatrics, 138(3). https://doi.org/10.1542/peds.2016-2149
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