Como é a variação de peso nos primeiros dias de vida do bebê?

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Foto de Jessica To’oto’o em Unsplash

Os dias iniciais de um bebê são cheios de aventuras, como já conversamos aqui e aqui. Um evento em especial nessa fase da vida pode determinar muito do seu futuro: é a forma que vamos lidar com a esperada (e temida!) perda de peso que ocorre nos primeiros dias de vida. A perda-de-peso-fobia pode ser responsável por atrapalhar o aleitamento materno ou até mesmo desencorajar seu estabelecimento.

Espera-se que todos os recém-nascidos percam líquido e gordura logo após o nascimento, ocasionando considerável perda de peso, independente da forma de parto, da idade gestacional e de seu peso de nascimento. Essa perda concentra-se nas primeiras 72 horas de vida e estudos mostram que, na maioria dos casos, fica em torno de 6% do peso do nascimento. Algumas características influenciam para maior perda de peso, como ser prematuro ou grande para idade gestacional, enquanto outras parecem levar à menor perda, como ser pequeno para a idade gestacional, por exemplo. A Associação Americana de Pediatria recomenda que bebês nascidos a termo devam perder até 7% do peso de nascimento. Entretanto, estudos com mais de 400 recém-nascidos saudáveis mostram que até metade dessa população estudada perdeu mais do que os recomendados 7%, mesmo sem apresentarem nenhuma doença. Espera-se que o retorno ao peso de nascimento ocorra por volta do 7º dia de vida para os recém-nascidos a termo, podendo levar duas semanas nos recém-nascidos prematuros. A preocupação com a perda de peso excessiva tem fundamento: ela pode ser um sinal de desidratação grave, levar a um desequilíbrio da quantidade de sódio corporal ou, ainda, piorar quadros de icterícia.

Ainda não há informação de qualidade para nos guiar na quantidade considerada segura de peso que um bebê pode perder, nem no tempo que podemos esperar para que ele recupere seu peso de nascimento. Até poucos anos atrás, o padrão de crescimento de bebês amamentados no peito era indevidamente comparado com o crescimento de bebês que eram alimentados por fórmula. Por tudo isso, é comum ficarmos presos num dilema: posso tolerar essa perda de peso (ou a demora para o seu ganho) ou estou em um valor crítico em que complementar o aleitamento materno é imprescindível?

O cientista e filósofo do século 16 Frances Bacon disse que, às vezes, remediar um problema pode ser pior do que a própria doença. Essa máxima ajuda a explicar o porquê de tantas dúvidas em torno da perda de peso no recém-nascido. Optar por ofertar fórmula infantil quando ela não é necessária pode levar ao desmame precoce e à perda dos infinitos benefícios do aleitamento materno, aumentar o risco de alergias, infecções de ouvido e diarreias. Para a mãe, a indicação de complementação do aleitamento materno pode interferir erroneamente em sua autoestima e minar indevidamente a confiança em sua capacidade de ser mãe. Basear-se unicamente em uma média de ganho de peso por dia ou em uma porcentagem de perda é deixar de considerar o binômio mãe e bebê como um todo. Avaliar o bebê sequencial e frequentemente (incluindo seu peso), verificar o número de fraldas molhadas de xixi por dia, corrigir possíveis erros na pega e na sucção e verificar a produção de leite constituem formas para se ter uma melhor impressão da situação. Às vezes, haverá necessidade iniciar complemento e, quando bem indicado e orientado, será mantido por um pequeno período de tempo, até que se façam os ajustes necessários. Idealmente, as avaliações do recém-nascido devem ser feitas pelo mesmo profissional – na medicina, assistir a um filme é sempre melhor que ver uma foto! – para que se consiga estabelecer uma relação de confiança e uma tomada de decisão que esteja em comum acordo, transformando a variação de peso em uma aventura segura, dentre tantas que estão por vir.

Referências:

  1. Ditomasso D, Paiva AL. Neonatal weight matters: An examination of weight changes in full-term breastfeeding newborns during the first 2 weeks of life. J Hum Lact. 2018;34(1):86-92. doi:10.1177/0890334417722508.
  2. Davanzo R, Cannioto Z, Ronfani L, Monasta L, Demarini S. Breastfeeding and neonatal weight loss in healthy term infants. J Hum Lact. 2013;29(1):45-53. doi:10.1177/0890334412444005.
  3. Bertini G, Breschi R, Dani C. Physiological weight loss chart helps to identify high-risk infants who need breastfeeding support. Acta Paediatr Int J Paediatr. 2015;104(10):1024-1027. doi:10.1111/apa.12820.
  4. Noel-Weiss J, Courant G, Woodend AK. Physiological weight loss in the breastfed neonate: A systematic review. Open Med. 2008;2(4). doi:10.1055/s-0028-1103034.
  5. Wilbaux M, Kasser S, Wellmann S, Lapaire O, Van Den Anker JN, Pfister M. Characterizing and forecasting individual weight changes in term neonates. J Pediatr. 2016;173:101-107.e10. doi:10.1016/j.jpeds.2016.02.044.

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