Bebê precisa de check-up?

checkup
Foto de Chayene Rafaela em Unsplash

O termo check-up médico refere-se a um exame médico para avaliar sua saúde. Na prática, significa realizar exames em pessoas saudáveis, sem sintomas. Eu, como médica e paciente, tenho um pouco de aversão ao termo check-up, pois ele acaba sendo interpretado como a necessidade de realização de exames complementares para sabermos se estamos ou não bem de saúde, dando a falsa ideia de que existem meios de detectar e prevenir problemas de saúde através de alguma intervenção, quando, na verdade, nada substitui nem a boa prática da medicina, embasada numa boa relação médico-paciente, nem hábitos saudáveis de vida. É claro que, em alguns casos, é importantíssimo a realização de alguns exames mesmo em bebês saudáveis, como até já vimos aqui em outras postagens. O problema, como na maioria das vezes, dá-se com os exageros.

Pensando em ajudar médicos e pacientes a realizar apenas o que temos mais comprovação do que é benéfico, diversas entidades lançaram dispositivos para facilitar as escolhas. A força-tarefa norte americana (USPS-Task Force) recomenda alguns cuidados para crianças de até 1 ano de idade. E veja só: algumas começam até antes do nascimento! Confira abaixo os cuidados que são mais fortemente embasados pela ciência:

  • Para ser realizado na gestação: teste de HIV e intervenções para a mãe parar de fumar. É essencial para o recém-nascido ter resultado do HIV materno, pois, no caso do exame positivo, há uma série de intervenções que minimizam a chance de infecção na criança. Em relação ao tabagismo, sabe-se que o fumo passivo traz uma série de consequências tanto intraútero, como depois do nascimento. Outros exames para rastrear infecções também são importantes, como sífilis, hepatite B e toxoplasmose. 
  • No parto: profilaxia para prevenir conjuntivite gonocócica, a ser realizada até 24 horas depois do parto, mas preferencialmente nas primeiras horas (é o colírio que se pinga nos olhos dos bebês). Outras medidas importantes para o recém-nascido já vimos nessa postagem aqui e aqui).
  • Uso de flúor para prevenção de cáries: cáries são a infecção crônica mais comum em crianças, chegando a mais de 54% em crianças que vivem abaixo da linha da pobreza! A recomendação de uso de flúor em menores de um ano é recente, mas é reforçada pela Associação Americana de Pediatria, Associação Brasileira de Odontopediatria e pela Sociedade Brasileira de Pediatria. O medo de causar fluorose, que é o excesso de flúor ingerido, pode ser evitado com o cuidado com a quantidade de flúor utilizado pela criança: entre 6 meses e 1 ano, a quantidade de creme dental deve ser do tamanho de, no máximo, 1 grão de arroz. Vale lembrar que a água que bebemos também contem flúor, o que justifica ainda mais cuidado na quantidade de creme dental a ser usado.
  • Avaliação de anemia: não temos evidências para dizer que vale a pena investigar anemia em crianças saudáveis. Independente do exame de sangue, há a indicação de suplementação de ferro a partir do 3º mês de vida. Vale lembrar que estamos falando de crianças sem sintomas, em que se quer prevenir No caso de suspeita clínica de anemia, a coleta de exames está indicada.
  • Avaliação de displasia do desenvolvimento do quadril: alguns bebês podem nascer com uma alteração no quadril que, se não identificada e tratada, pode levar a alterações na forma de caminhar. Recomenda-se, com alguma controvérsia, a realização de ultrassom do quadril por volta da 6ª semana de vida para meninas que nasceram em apresentação pélvica ou crianças com alteração no exame físico ou com história na família com esse problema do quadril. Há entidades, entretanto, que indicam a realização do exame apenas se tiver alteração no exame físico.

Existem vários outros cuidados que podem ser realizados durante o primeiro ano de vida, acima estão apenas os exemplos em que há praticamente um consenso universal.

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, realizar exames sem necessidade não é algo livre de riscos. Por exemplo: radiografias ou tomografias, quando feitas sem ter uma indicação verdadeira, vão nos expor desnecessariamente à radiação. Exames laboratoriais em pessoas saudáveis podem vir com resultados falsamente positivos, exigindo novos exames e gerando tensão nos envolvidos.

O objetivo desse texto é alertar para que não existem pacotes fechados de procedimentos ou exames que devem ser feitos de rotina para todos. A melhor avaliação de sua criança deve ser feita através de um acompanhamento de rotina, com alguém que conheça a família e que estabeleça uma relação de confiança. E, principalmente, a principal contribuição que se pode fazer para a saúde da criança é criá-la cercada de amor, com alimentação saudável, em ambiente seguro e apropriado para brincar e crescer dentro do seu maior potencial!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s