Vamos evitar afogamentos?

sea water blue sun
Foto por Pixabay em Pexels.com

A temporada de sol, calor, banhos de mar, cachoeira e piscina deve ser lembrada pelos seus momentos alegres. Entretanto, a notícia publicada no final do mês de janeiro alerta: em Santa Catarina, o número de mortes por afogamento aumentou em 65% nesta temporada, em comparação com a temporada passada. Para que tenhamos só lembranças boas do verão, vale a pena atentar para alguns cuidados, principalmente quando se trata de crianças e adolescentes.

Casos de afogamento e acidentes de submersão são sempre traumáticos, tanto pelas perdas e sequelas envolvidas quanto pela sensação de que algo poderia ter sido feito para evitar. Entender que acidentes são compreensíveis, previsíveis e passíveis de prevenção são o caminho para reduzirmos os casos de acidentes com crianças, incluindo afogamento.

No ano de 2010, houve 6143 mortes entre crianças entre zero e 14 anos de causas externas, ou seja, mortes não causadas por doenças. Óbitos por afogamento foram a segunda causa, perdendo apenas para acidente de trânsito1. A faixa etária que mais preocupa é a de crianças entre zero e 4 anos de idade, sendo o pico entre um e 3 anos2,3. Há um segundo pico de incidência durante a adolescência – nesse grupo, chama a atenção para o número de acidentes até 10 vezes maior em meninos do que em meninas1,3.

Os acidentes com crianças pequenas ocorrem, na maioria dos casos, na piscina de casa4. Um estudo realizado na Austrália avaliou 46 casos de afogamento e notou que somente em três casos a criança já estava na área da piscina2. Esse dado alerta para o grande número de casos em que a criança acessou a área da piscina sem o conhecimento/supervisão de um adulto. Em minha experiência, todos os casos de afogamento que eu peguei foram nessas circunstâncias. A citação de um estudo australiano não deve alimentar a falsa crença de que esse tipo de acidente é de país rico: a Organização Mundial de Saúde estima que 95% das mortes por causas externas ocorrem em países menos desenvolvidos1.

Acredita-se que as medidas mais efetivas para controle de acidentes são as chamadas intervenções passivas, que não dependem da vontade do indivíduo de se proteger3. Pensando nisso, há um projeto de lei em tramitação desde 2014 com o objetivo de reduzir o acidente em piscinas privativas, coletivas e públicas no Brasil. Dentre as recomendações, incluem-se a colocação de piso antiderrapante ao redor da piscina, disponibilização de guarda-vidas, cercamento adequado da piscina, sinalizações de alerta de profundidade, proibição do uso de piscina sob efeito de bebidas alcóolicas e sistema hidráulico para evitar acidentes de sucção (projeto de lei disponível aqui).  Entretanto, mesmo com a aprovação do projeto e a adequada fiscalização de piscinas Brasil afora, nenhuma estratégia é efetiva sozinha. São necessárias camadas de proteção para que tenhamos o melhor resultado3.

O que podemos fazer, afinal, para prevenir afogamentos3,4,5?

  1. Cuidados com o ambiente: cercar a piscina adequadamente reduz em mais de 50% os acidentes em piscinas! A altura da cerca deve ser entre 1,20m e 1,50m (preferencialmente 1,50m) e deve contornar todos os lados da piscina. Seu material e sua construção precisa ser de forma que a criança não consiga passar por ela nem se espremendo por suas aberturas, nem a escalando. O portão deve fechar sozinho e ter fechadura automática, (com ímã, por exemplo) com tranca fora do alcance das crianças. É importante sempre verificar o funcionamento adequado dos portões. As coberturas da piscina não substituem a cerca. Inclusive, há relatos de aumentar o risco de acidentes, por fazer a criança andar por cima dela.

É necessário atenção à profundidade da piscina, tanto para evitar que a criança fique em local que não dá pé quanto para evitar os saltos na piscina em pequenas profundidades, que trazem risco de lesão da coluna.

Muito cuidado com as piscinas de plástico desmontáveis e piscinas infláveis. Por serem provisórias, acabam não contando com as cercas de proteção. Além disso, suas bordas dobráveis aumentam o risco de a criança cair de cabeça na piscina.

Qualquer recipiente que acumule água deve ser esvaziado, como as piscinas pequenas infláveis, baldes, tanques. Infelizmente, não são lendas os relatos de afogamento em águas muito rasas. Cuidado também com poços e caixas d’água, que devem estar bem fechados e longe do alcance das crianças.

Nas praias, procure ficar próximo aos salva-vidas e pergunte qual o melhor local para se banhar. Fique longe de pedras e píeres.

Em rios e cachoeiras, mantenha a água no máximo na altura da cintura. Cuidado com buracos e fundos de lodo, que podem afundar rapidamente. Se presenciar alguém na correnteza, procure jogar uma corda ou algum objeto flutuante. Cuidado com limo e barro liso, que podem fazer a criança escorregar e cair na água. Os acidentes em água doce são muito comuns, é preciso todo o cuidado!

  1. Supervisão: é necessário ter sempre um adulto por perto quando a criança estiver na água ou próxima dela. Nenhuma criança deve nadar sozinha, sem a supervisão de um adulto. É importante que este adulto não acumule funções, ou seja, não dá pra ficar de olho no celular sem comprometer o cuidado com a criança. Se tiver que se ausentar da área da piscina, leve a criança junto. Infelizmente, acidentes ocorrem por lapsos na hora da supervisão. Quando a criança não sabe nadar, a distância entre ela e o adulto não deve passar de um braço.

.

  1. Educação: desde cedo, é importante orientar a crianças e adolescentes sobre qual o comportamento seguro na água. Considera-se uma boa prática ensinar as crianças a nadar – acredita-se que possa reduzir em 88% o risco de se afogar. Contudo, deve-se ter o cuidado com o falso senso de segurança que aprender a nadar pode dar – isso vale tanto para os pais que podem relaxar ao cuidar de crianças pequenas, quanto para adolescentes, que podem querer testar seus limites. Aprender a nadar não é a única forma de evitar afogamentos, mas sim mais uma das camadas de proteção que devemos nos cobrir.

  1. Equipamento de segurança: coletes salva-vidas usados para aumentar a proteção, mas nunca como medida isolada para evitar afogamentos. Importante: as boias não são consideradas equipamentos de segurança!

Outro equipamento de segurança importantíssimo em piscinas e banheiras é o sistema de segurança de liberação de vácuo ou tampa de anti-aprisionamento, que evita com que partes do corpo fiquem presas na piscina.

  1. Uso de álcool: acredita-se que de 10 a 30% das mortes por afogamento possam ser atribuídas a bebidas alcóolicas. Além de alertar aos jovens os diversos riscos da bebida, fica o reforço para situações em que álcool e banho possam estar juntas. Não custa reforçar: quem tiver responsável por supervisionar criança na água também tem que seguir a lei seca!

  1. Suporte básico de vida: espera-se nunca precisar, mas é bom saber: ao se deparar com uma vítima de afogamento que não responde, peça ajuda imediatamente e inicie manobras de reanimação. Assim como é importante saber nadar, é importante também aprender suporte básico de vida.

Não deixemos prazerosas atividades de lazer transformarem-se em desgraças. As atividades na água devem, sim, inspirar cuidados, mas sem deixar de inspirar felizes momentos em família e amigos. Que todos possam aproveitar o verão de forma segura e sem sustos!

Referências:

  1. Imamura J, Troster E, Oliveira C. What types of unintentional injuries kill our children? Do infants die of the same types of injuries? A systematic review. Clinics. 2012;67(9):1107-1116. doi:10.6061/clinics/2012(09)20
  2. Franklin RC, Peden AE. Improving pool fencing legislation in Queensland, Australia: Attitudes and impact on child drowning fatalities. Int J Environ Res Public Health. 2017;14(12):1-15. doi:10.3390/ijerph14121450
  3. Comitee on Injury, Violence and PP, Weiss J. Technical Report – Prevention of Drowning. Pediatrics. 2010;126(1):e253-e262. doi:10.1542/PEDS.2010-1265
  4. Paes CEN, Gaspar VL V. Unintentional injuries in the home environment: home safety. J Pediatr (Rio J). 2005;81(8):146-154. doi:10.2223/JPED.1402
  5. Szpilman D. Afogamento na infância : epidemiologia , tratamento e prevenção. Rev Paul Pediatr. 2005;23(3):142-153.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s