Para cuidar de crianças, é preciso cuidar de si!

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Foto por nicollazzi xiong em Pexels.com

Sabe-se que, quando se tem filhos, há uma série de cuidados necessários para proporcionar o crescimento e o desenvolvimento da criança da melhor forma possível. Hábitos de vida saudáveis instaurados desde pequeninhos exercem fundamental papel para a saúde imediata e futura, física e mental. Entretanto, existe um cuidado com a saúde essencial para a promoção do bem-estar da criança: o cuidado de quem cuida.

A Organização Mundial de Saúde define saúde mental não apenas como a ausência de doenças psiquiátricas, mas sim como um estado de bem-estar, no qual cada pessoa se considera forte e capaz de lidar com os estressores habituais da vida, que consegue ser produtivo e é capaz de contribuir com a comunidade em que vive (https://www.who.int/features/factfiles/mental_health/en/). Mesmo que nos consideremos saudáveis, podemos nos encontrar em um estado em que nossa saúde mental está abalada.  

A bem-conceituada revista científica JAMA Pediatrics publicou agora em janeiro desse ano um estudo realizado na Noruega com um achado interessante: sintomas de saúde mental, baixa escolaridade e consumo elevado de álcool estão associados com aumento do risco de ansiedade e sintomas depressivos nas crianças1. Já é bem sabido que cuidadores alcoolistas e com doenças mentais são fatores de risco para desenvolvimento de doenças mentais também nas crianças. O estudo parte da premissa que mesmo condições que podem ser consideradas subclínicas, sem o diagnóstico fechado de alcoolismo ou de alguma doença mental, podem também influenciar na saúde mental das crianças. Para isso, os autores avaliaram famílias compostas por dois pais e filho adolescente, bem como seus registros hospitalares. Eles identificaram que crianças filhas de pais com menor nível educacional tinham maior risco de ansiedade e/ou depressão quando adolescentes ou adultos jovens. Houve risco aumentado também para crianças filhas de pais que bebiam com frequência (mesmo que não fosse em quantidade excessiva) e filhas de pai com maior número de sintomas relativos à saúde mental. Entre os adolescentes e jovens adultos que precisaram de acompanhamento por depressão e/ou ansiedade, as crianças dos grupos acima precisaram de maior número de consulta e remédios, podendo sinalizar quadros mais graves. Chama a atenção o fato de que, mesmo no grupo de pais com baixa escolaridade e com episódios de abuso de álcool, o fato de eles possuírem menos sintomas relativos à saúde mental pode ter sido protetor.

Um recente estudo iraniano mostra possível associação entre sintomas de ansiedade e depressão nos pais com o surgimento de agressividade, comportamento mais infantilizado e também ansiedade nas crianças em idade pré-escolar2.  Há mais muitas pesquisas mostrando efeitos adversos na vida adulta decorrente de experiências vividas na infância. Um deles, realizado no Reino Unido, mostrou que ter crescido em contato com alguém com doença mental está associado a um pior estado de saúde mental na vida adulta, com impacto maior até do que abuso físico e mental e uso de álcool3.

Sabendo de tudo isso, vale a pena investir na prevenção. Há estudos que buscam intervir em toda a família, com foco em aumentar a resiliência de crianças que vivem em ambientes de risco, como no caso do convívio com doenças mentais4,5. Contudo, parece ser uma estratégia eficiente procurar melhorar o bem-estar de pais e cuidadores, como forma de promover um ambiente de crescimento saudável.

Portanto, se você é responsável por cuidar de uma criança, lembre-se sempre de cuidar também de você. Vejo como é fácil pais e cuidadores temerem ser considerados egoístas por se preocuparem consigo mesmos. Considero que o bem-estar de pais e cuidadores é tão importante para a criança quanto alimentação saudável, estímulo para o neurodesenvolvimento e medidas de segurança contra acidentes domésticos. Cuide de sua saúde mental para que você possa criar adultos confiantes, resilientes e saudáveis.

Referências

  1. Lund IO, Skurtveit S, Handal M, et al. Association of Constellations of Parental Risk With Children’s Subsequent Anxiety and Depression Findings From a HUNT Survey and Health Registry Study. JAMA Pediatr. 2019:1-9. doi:10.1001/jamapediatrics.2018.4360
  2. Bahramnezhad F, Chalik R, Bastani F, Taherpour M, Navab E, Nursing CC. The association between parental mental health and behavioral disorders in pre-school children. Electron Physician. 2017;9(6):4497-4502. doi:10.14661/2015.971-976
  3. Hughes K, Lowey H, Quigg Z, Bellis MA. Relationships between adverse childhood experiences and adult mental well-being: Results from an English national household survey. BMC Public Health. 2016;16(1):1-11. doi:10.1186/s12889-016-2906-3
  4. Beardslee WR, Gladstone TRG, Wright EJ, Cooper AB. A Family-Based Approach to the Prevention of Depressive Symptoms in Children at Risk: Evidence of Parental and Child Change. Pediatrics. 2003;112(2):e119-e131. doi:10.1542/peds.112.2.e119
  5. Wlodarczyk O, Schwarze M, Rumpf H-J, Metzner F, Pawils S. Protective mental health factors in children of parents with alcohol and drug use disorders: A systematic review TT – Schutzfaktoren für die psychische Gesundheit bei Kindern von Eltern mit Alkoholkonsum- und Substanzgebrauchsstörungen: Ein systematische. PLoS One. 2017;12(6):e0179140-e0179140. http://www.redi-bw.de/db/ebsco.php/search.ebscohost.com/login.aspx%3Fdirect%3Dtrue%26db%3Dpdx%26AN%3D0330052%26site%3Dehost-live.

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