Época de sol… e de proteção solar!

silhouette photography of children playing near body of water
Foto por Samy Santos em Pexels.com

A infância é como uma tela em branco, pronta para ser pintada pela criança, sob orientação cuidadosa e amorosa de seus pais e cuidadores. Retoques podem ser feitos a vida inteira. Porém, quanto melhor for a pintura inicial, mais fácil será manter a obra de arte e menos esforços serão necessários para realizar possíveis correções. Eu poderia usar esse cabeçalho para praticamente qualquer texto publicado aqui, e com a exposição solar não vai ser diferente. A infância e a adolescência são fases importantíssimas para atuarmos na prevenção do câncer de pele.

Existem vários fatores de risco para o desenvolvimento do câncer de pele, mas podemos agir apenas nos chamados adquiridos e ambientais. Dentre eles, o mais conhecido e estudado é a radiação ultravioleta (UV). Ela atua de formas complexas para o desenvolvimento do câncer. Pode-se tentar simplificar explicando que os raios UVA e UVB causam dano no DNA da célula, facilitando não só o surgimento de cânceres de pele quanto do envelhecimento precoce1. Sabe-se que tanto a exposição intensa, que causa queimaduras, como a exposição cumulativa estão envolvidas no desenvolvimento do câncer de pele2. Quem nasce em áreas ensolaradas, como regiões tropicais e subtropicais, possui risco 6 vezes maior de desenvolver melanoma, o câncer de pele mais agressivo, quando comparado às pessoas que nascem em áreas não-ensolaradas. A incidência de melanoma no mundo ainda está aumentando. Estima-se que hoje o risco de desenvolver melanoma ao nascer seja quase 50 vezes maior quando comparado com quem nasceu em 19353.

Uma das dicas de que a exposição solar durante infância e adolescência era importante fator de risco para o desenvolvimento do melanoma surgiu com a constatação de que quando populações com baixa incidência de melanoma se mudavam para áreas de alta incidência na vida adulta, elas permaneciam com baixo risco de desenvolver melanoma. Se isso ocorria ainda na infância, o risco se assemelhava ao da população nativa da área de alta incidência3,4. Uma série de características própria da pele de bebês e crianças torna-os mais vulneráveis ao dano pela radiação solar, como a menor quantidade de melanina1. Estudos mostram que os bebês passam por seu primeiro verão sem que a capacidade de fotoproteção própria da pele esteja completamente formada1.  Hoje se sabe que as queimaduras sofridas na infância aumentam consideravelmente a chance de melanoma na vida adulta. Ter se exposto a queimaduras durante a infância aumenta o risco de melanoma em 2 a 6 vezes. Mesmo que não ocorram queimaduras, a exposição solar excessiva na infância pode induzir a formação de nevos melanocíticos, que estão associados a maior chance do desenvolvimento do melanoma. A infância é considerada, portanto, um período crítico para o desenvolvimento de câncer de pele5.

Crença dos pais de que as crianças parecem mais saudáveis quando estão bronzeadas é considerada um dos fatores que levam as taxas de queimaduras a valores entre 29 e 83% durante o verão. A Austrália, país com a maior incidência de melanoma do mundo, é um dos locais que mais pesquisa sobre o tema e é também um dos pioneiros em estratégias de prevenção. Lá, existem iniciativas governamentais para prevenir o excesso de exposição solar e as queimaduras em crianças, com intervenções desde campanhas em televisão, redução de preço de protetor solar até ações educacionais nas escolas, com o objetivo de conscientizar as crianças da importância da proteção solar. Ainda assim, um estudo mostrou que 8% das crianças tinham apresentado queimadura solar no fim de semana anterior ao da pesquisa, tendo como causas o esquecimento de passar protetor solar ou de cobrir determinada área do corpo, a não reaplicação do protetor solar e a exposição solar excessiva6. Deu pra se reconhecer em alguma delas?

O início precoce da proteção solar e seu uso continuado pode reduzir significativamente o risco de desenvolver câncer de pele. Acredita-se que, com as medidas adequadas, poderia se prevenir 80% de todos os cânceres de pele7. Então, vamos começar?

Até os seis meses, não é indicado o uso de protetor solar. A justificativa para tal é que não há estudos sobre a segurança do uso de protetores solares nessa faixa etária. Além do mais, considera-se que a criança não consegue se movimentar sozinha, então é mais fácil para os pais controlarem a exposição solar. Para ir a praia ou piscina, recomenda-se abusar de sombras, chapéus e roupas leves, mas protetoras1 – trama do tecido espessa, seca, sem ser muito apertada ao corpo, com filtro UV.

A partir dos seis meses, está indicado o uso de protetor solar. Os protetores solares mais modernos contam com filtros orgânicos e inorgânicos. Dessa forma, eles funcionam com mais de um mecanismo para proteger da radiação UVA e UVB. Existem diversos veículos, ou seja, a forma como o protetor é apresentado, como creme, loção cremosa, gel, aerossol. A proteção é semelhante, é importante escolher o que você considere de melhor uso na prática e o que melhor se adequa a pele da criança. Por exemplo, loções cremosas são boas para uso em grandes áreas corporais, enquanto o aerossol é ideal para aplicar no couro cabeludo. Até os dois anos, especialistas recomendam que se dê preferência a protetores com predomínio de filtros inorgânicos, por acreditar que sejam mais inócuos à pele. O FPS, fator de proteção solar, recomendado para crianças é a partir de 30. Para que o protetor solar cumpra sua função adequadamente, precisamos fazer a nossa parte: reaplicação a cada 2 horas ou antes, caso entre na água ou sue muito e a aplicação da quantidade adequada, que é de 2mg/cm2 de superfície corporal. Pode-se seguir a seguinte regra prática:

  • 6 meses a 2 anos: pelo menos 1 colher de chá
  • 2 a 4 anos: 2 colheres de chá
  • 4 a 7 anos: 3 colheres de chá
  • 8 a 11 anos: 4 colheres de chá
  • 12 anos: 5 colheres de chá

Retirado de Cuidados com a pele infantil – fotoproteção, disponível em http://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/pdfs/painel-JJ-Fasciculo-4.pdf

Mesmo na idade em que já é permitido o uso de protetor solar, continua válida a recomendação de aproveitar as sombras, uso de chapéus e roupas protetoras. Vale lembrar que, mesmo embaixo da sombra do guarda-sol, o uso de protetor solar é necessário, pois superfícies refletoras, como areia e água, podem levar a queimaduras.

Enquanto eles são pequenos, a responsabilidade de proteção cai mesmo sobre os pais e cuidadores. Em idade escolar, já se pode iniciar também medidas de educação, tanto por parte dos pais como da escola, para que eles aprendam desde cedo a se cuidar8. O adolescente, com a impressão de que o bronzeado pode deixa-lo mais atraente, coloca-se sob risco de queimaduras solares2,9. Mais uma vez, orientação adequada é valiosa.

Não custa reforçar: os horários de maior incidência de radiação são das 10h às 16h e, para o horário de verão, das 11h às 17h. Sempre que possível, evitar a exposição solar nesses horários e, quando o fizer, abusar das medidas de proteção. A maioria das previsões do tempo contam também com o índice UV do dia, o que pode ajudar a se preparar na hora de sair de casa. Acima de 6 já é considerado alto, mas mesmo com índices entre 3 e 6, está indicada a proteção solar adequada, mesmo que o dia esteja nublado.

É possível permitir diversas oportunidades que um dia ensolarado oferece para a imaginação das crianças, basta seguir as recomendações de proteção solar. É a oportunidade perfeita para se pintar uma tela feliz e cheia de saúde.

Referências:

  1. Paller AS, Hawk JLM, Honig P, et al. New Insights About Infant and Toddler Skin: Implications for Sun Protection. Pediatrics. 2011;128(1):92-102. doi:10.1542/peds.2010-1079
  2. Azoury SC. Epidemiology, Risk Factors , Prevention, and Early Detection of Melanoma. Surg Clin NA. 2014;94(5):945-962. doi:10.1016/j.suc.2014.07.013
  3. Whiteman DC, Whiteman CA. Childhood sun exposure as a risk factor for melanoma : a systematic review of epidemiologic studies. 2001.
  4. Garbe C, Leiter U. Melanoma epidemiology and trends. Clin Dermatol. 2009;27(1):3-9. doi:10.1016/j.clindermatol.2008.09.001
  5. Oliveria AS, Sarayia M, Geller AC, Heneghan MK, Jorgensen C. Sun exposure and risk of melanoma. 2006:131-138. doi:10.1136/adc.2005.086918
  6. Dobbinson S, Wakefield M, Hill D, et al. Childrens sun exposure and sun protection: Prevalence in Australia and related parental factors. J Am Dermatology. 2011;66(6):938-947. doi:10.1016/j.jaad.2011.06.015
  7. Robinson JK, Rigel DS, Amonette RA. Summertime sun protection used by adults for their children. J Am Acad Dermatol. 1997;42(5):746-753. doi:10.1067/mjd.2000.103984
  8. Dnp DKW. Skin Protection for ( SPF ) Kids Program 1. J Pediatr Nurs. 2012;27(3):233-242. doi:10.1016/j.pedn.2011.01.031
  9. Falzone AE, Brindis CD, Chren M, et al. Teens, Tweets, and Tanning Beds_ Rethinking the Use of Social Media for Skin Cancer Prevention. Am J Prev Med. 2017;53(3):S86-S94. doi:10.1016/j.amepre.2017.04.027

One thought on “Época de sol… e de proteção solar!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s