Deu diarreia, e agora?

wbz-diarrhea-in-children
https://www.webmd.com/children/guide/diarrhea-treatment#1

(…)

Bomba colocada nele
Pelos séculos de fome
e que explode em diarreia
no corpo de quem não come. 
 

Não é uma bomba limpa:
é uma bomba suja e mansa
que elimina sem barulho
vários milhões de crianças. 

Ferreira Gullar, “A bomba suja”

 

A gastroenterite aguda infecciosa, frequentemente resumida em diarreia ou virose é uma das causas mais frequentes de aborrecimento da saúde. Nos Estados Unidos, estima-se que seja responsável por 1,7 milhões de idas de criança às emergências ao ano. O número deve ser ainda mais elevado nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. É aqui também onde o poema do Ferreira Gullar faz bastante sentido: se você nasceu na década de 1980, significa que sobreviveu a uma época em que a diarreia aguda correspondia a ¼ das causas de óbito em crianças. Desde então, houve queda progressiva nas taxas de óbito mas, no último ano, infelizmente, a mortalidade por diarreia voltou a aumentar, principalmente nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Uma verdadeira lástima, pois é uma doença de fácil reconhecimento, de tratamento simples e barato e altamente ligada às condições sociais da população.

A diarreia é definida pela mudança da consistência das fezes e pelo aumento do número de evacuações. Considera-se para o diagnóstico a ocorrência de três ou mais evacuações líquidas ou amolecidas nas últimas 24 horas. É comum vir acompanhada de dor de barriga/cólicas, sensação de urgência para evacuar, vômitos, náusea, febre e sensação de mal-estar. É uma doença chamada de auto-limitada, pois a grande maioria dos casos vai resolver sem nenhum tratamento específico (ou seja, não há remédio para matar o bicho) em no máximo 14 dias, sendo que a maioria se resolve antes de uma semana. Bebês com menos de três meses ou crianças que possuem outras doenças, como diabetes, problemas nos rins e fígados costumam preocupar mais, pois podem evoluir de forma mais grave.

Os principais vilões dessa história são os vírus, responsáveis por grande parte dos casos. Com a vacina contra o rotavírus, que faz parte do Programa Nacional de Imunizações, consegue-se evitar uma boa parte deles, porém, ainda tem outros tantos que não contam com prevenção específica. Bactérias e parasitoses também podem causar gastroenterite e, nesses casos, há alguns sinais que podem fazer seu médico desconfiar dos vilões menos frequentes.

A desidratação é a principal preocupação nos casos de diarreia. A perda de água e outros elementos necessários para o funcionamento correto do nosso corpo através da evacuação pode chegar a um ponto crítico, em que a reposição adequada das perdas é essencial.

Mais importante do que identificar qual foi a causa exata da diarreia, se foi o cachorro-quente ou se foi o primo que estava doente, é simplesmente identificar que se trata de um caso de gastroenterite: presença de fezes amolecidas ou líquidas, dor de barriga, mal-estar, até que se prove o contrário, deve ser encarado como um caso de diarreia. Quando isso acontece, é importante procurar sinais de desidratação, como saliva seca, diminuição da quantidade do xixi, chorar sem lágrimas, irritabilidade ou sonolência excessiva e olhos fundos. Médicos são treinados para reconhecer esses sinais, mas caso você perceba algum deles, é necessário procurar atendimento.

A maior parte dos quadros de diarreia cai na classificação “Sem desidratação”, da Organização Mundial de Saúde. Isso significa que o tratamento está focado em evitar a desidratação e requer a reposição das perdas pela diarreia através de solução de reidratação oral: após cada evacuação, deve-se oferecer a solução de reidratação oral. Tão importante quanto a reposição das perdas é manter o aleitamento materno (não só reidrata como alimenta!), evitar alimentos e líquidos açucarados, como refrigerantes e sucos artificiais. Não há indicação para retirar leite e derivados da dieta das crianças, apenas em alguns casos bem selecionados. Deve-se manter a oferta de água e de alimentos, aproveitando a oportunidade para estabelecer hábitos alimentares saudáveis. A boa e velha sopa de frango e hortaliças cai muito bem nesse momento!

Existem alguns medicamentos que, em casos selecionados e prescritos por médicos, podem ser usados, como suplementação de zinco, probióticos e racecadotrila. A ondansetrona, medicamento para melhorar sintomas de náusea e vômito, também pode estar indicada em algumas situações e parece ter reduzido a necessidade de internação. A metoclopramida (Plasil®) não está indicada para crianças, pois pode causar sonolência e reações extrapiramidais, que são alterações do tônus muscular. Apesar de reações benignas, eles podem se confundir com a doença atual e dar falsa impressão de piora – além de assustar bastante! O dimenidrato (Dramin®) também pode causar sonolência e não há boas evidências científicas para embasar seu uso, apenas a experiência prática de alguns profissionais.

Nos casos em que a desidratação está presente, é mandatória a avaliação médica, pois será necessário tratamento dentro de uma unidade de saúde. Quando há sinais de desidratação ou dúvidas sobre o grau de hidratação da criança, incapacidade de ingerir líquidos, sonolência, fezes com sangue ou pus e diarreia que piora em vez de melhorar também está indicada a avaliação médica. Não há exames indicados para se fazer o diagnóstico de diarreia nem para guiar o tratamento. Em alguns casos mais graves, pode ser necessária a realização de exames de fezes e de sangue.

Melhor do que fazer o tratamento certinho para a diarreia é nem tê-la, não é? Água potável, alimentos preparados adequadamente, higiene adequada das mãos fazem parte do arsenal para evitar a diarreia. Todas essas armas ficam falhas na falta do saneamento básico adequado. E, de novo, Ferreira Gullar se faz preciso em seu poema “A Bomba Suja”:

Cabe agora perguntar
quem é que faz essa fome,
quem foi que ligou a bomba
ao coração desse homem. 

Referências:

  1. Farion KJ, Gouin S, Willan AR, et al. Multicenter Trial of a Combination Probiotic for Children with Gastroenteritis. N Engl J Med. 2019:2015-2026. doi:10.1056/NEJMoa1802597
  2. Lazzerini M, Wanzira H. Oral zinc for treating diarrhoea in children (Review). 2017;(12). doi:10.1002/14651858.CD005436.pub5.www.cochranelibrary.com
  3. Lamont JT. Probiotics for Children with Gastroenteritis. N Engl J Med. 2018:2076-2077. doi:10.1056/NEJMe1814089
  4. Silva LR. Diarreia aguda: diagnóstico e tratamento. Guia Prático de Atualização – Departamento Científico de Gastroenterologia. Março 2017. http://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/publicacoes/Guia-Pratico-Diarreia-Aguda.pdf
  5. Guarino A, Ashkenazi S, Gendrel D, Lo Vecchio A, Shamir R, Szajewska H, et al. European Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition/European Society for Pediatric Infectious Diseases evidence- based. guidelines for the management of acute gastroenteritis in children in Europe: update 2014.J PediatrGastroenterol Nutr. 2014 Jul;59(1):132-52.
  6. Gutiérrez-Castrellón P, Salazar-Lindo E, Polanco-Allué I, Grupo Ibero-Latinoamericano sobre el manjeo de la diarrea aguda (GILA). Guía de práctica clínica ibero- latinoamericana sobre el manejo de la gastroenteritis aguda en menores de 5 años: enfoque, alcances y diseño. An Pediatr (Barc). 2014;80(Supl 1):1-4.
  7. https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/07/com-zika-e-crise-no-pais-mortalidade-infantil-sobe-pela-1a-vez-em-26-anos.shtml

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