Querido Papai Noel, eu não preciso de presentes caros…

“…Traga-me apenas brinquedos simples, que façam com que eu passe tempo de qualidade com minha família!”

Essa carta de Natal de mentirinha é inspirada não só em fatos reais, mas também na última recomendação da Associação Americana de Pediatria, que será lançada na revista científica Pediatrics, na edição de janeiro de 2019, intitulada “Selecionando brinquedos apropriados para crianças pequenas na era digital” (tradução livre).

Não há dúvidas quanto aos inúmeros benefícios do brincar: desde o mais importante e óbvio, que é entreter e divertir a criança, brincar também tem um papel fundamental para seu crescimento adequado, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, de linguagem, motoras e sociais. No entanto, o que é, de fato, um bom brinquedo e qual a melhor forma de brincar tornaram-se não tão claros nos últimos anos, principalmente pela oferta cada vez maior de brinquedos eletrônicos, telas e aplicativos para celulares e tablets.

Os melhores brinquedos são aqueles que estão de acordo com a fase do neurodesenvolvimento da criança e que incentivam o surgimento de novas habilidades. Brinquedos que são usados para criar histórias (e aí vale a pena aproveitar os livros infantis para estimular a criatividade!), que permitem interações verbais e que estimulem o faz-de-conta são essenciais desde a primeira infância, e sua importância cresce junto com o crescimento da criança. Bons exemplos de brinquedos são blocos de montar, que ajudam no desenvolvimento de habilidades motoras finas, solução de problema e noção de espaço. Além disso, é um bom exemplo de brinquedo que pode “crescer com a criança”, pois se com 1 ano e meio ela o utiliza apenas para tentar empilha-lo, com 2 anos pode utilizar os blocos para diversos “faz-de-conta”, até passar a usar os blocos para construir pontes, prédios, casas.

Os principais benefícios de brincar se apoiam na interação com os cuidadores. O aprendizado de novas habilidades é otimizado quando ocorre com brincadeiras em que a criança faz algo e recebe um retorno do seu cuidador.

Para crianças maiores, entretanto, ter um tempo de brincadeira a sós também é necessário, para que ela possa explorar os brinquedos no seu próprio tempo e desenvolver de forma independente sua criatividade e habilidades de investigação e assimilação.

Já falamos aqui outra vez sobre os riscos da exposição precoce e excessiva aos dispositivos eletrônicos, como smartphones, tablets e afins. Ela está associada a comportamento agressivo, obesidade, redução do vocabulário, e menor vocalização. O uso das mãos para explorar e manipular objetos é necessário para fortalecer áreas no cérebro responsáveis pelo aprendizado espacial e matemático. Além de tudo isso, o uso de dispositivos eletrônicos diminui a interação entre crianças e seus cuidadores, tão importante para seu desenvolvimento.

Não há nenhuma evidência de que brinquedos eletrônicos, frequentemente divulgados como “educativos” contribuam para o melhor desenvolvimento da criança. Na verdade, o que se tem de evidência indica que brinquedos do estilo de estimulação sensorial por luz e sons (aperta e aparece um monte de luzes coloridas e barulhos) possam tirar o foco do contato social, que se daria através de gestos, vocalizações e expressões faciais, importantes para o desenvolvimento social. É fácil cair nas armadilhas de brinquedos modernos que prometem educar, afinal, pais sempre buscam oferecer o melhor aos seus filhos. Frente a violentas campanhas de marketing que promovem brinquedos eletrônicos e aplicativos educativos, sem qualquer embasamento científico confiável, é necessário que profissionais de saúde ajudem as famílias no esclarecimento do que é adequado para as crianças e na desmitificação dos brinquedos milagrosos.

É importante que preservemos o brincar desde a fase em que ainda não se consegue escrever cartinha para o Papai Noel. Brinquedos de qualidade não precisam ser caros! Escolha um brinquedo que divirta a criança e que faça com que vocês passem um tempo de qualidade juntos e terá um emprego de ajudante de Papai Noel garantido!

Confira a recomendação da Associação Americana de Pediatria, que inspirou a elaboração desse texto: http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2018/11/29/peds.2018-3348

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