Só um tapinha não dói? Ou: como disciplinar a criança de forma saudável

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Photo by Anna Kolosyuk on Unsplash

A disciplina é vista como essencial para a evolução da criança, pois é necessário que ela aprenda sobre comportamentos aceitáveis. Estratégias eficientes de disciplina garantem o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais e previnem lesões a si mesmo e aos outros.

A forma de disciplina através de punição corporal está menos frequente – a afirmação de que boas palmadas são necessárias para disciplinar uma criança era considerada correta por 84% dos pais em 1986 e caiu para 70% (!!) em 2012. Ainda assim, vale a pena aprendermos sobre como funciona e quais as consequências desse conceito de disciplina. Um estudo de 2014, com 33 famílias, observou que a punição física ocorria logo depois da punição verbal, mostrando um certo grau de impulsividade. Nesse mesmo estudo, viu-se que a punição física não funcionava, pois 73% das crianças repetiam o mesmo comportamento que tinha levado ao castigo. Outro estudo, de 2016, que reúne várias pesquisas sobre o tema, confirma que a punição física não é efetiva para a disciplina.

Um estudo que acompanhou 5000 crianças em 20 grandes cidades dos Estados Unidos viu que crianças que apanhavam mais que duas vezes quando tinham 3 anos eram mais agressivas aos 5 anos idade. Aos 9 anos de idade, confirmou-se a relação negativa entre as crianças que apanharam, apresentando pior comportamento. Crianças vivendo em orfanatos que sofreram alguma forma de abuso apresentam, com maior frequência, comportamento desafiador. De modo geral, estudos mostram que a punição física está associada a crianças com mais comportamento desafiador, mais agressão a outras crianças, pior relação entre pais e filhos e maior risco de doenças psiquiátricas e problemas de cognição.

Os abusos verbais também têm impacto no futuro das crianças: crianças que sofreram esse tipo de violência antes dos 13 anos apresentaram maiores índices de sintomas depressivos e problemas de conduta durante a adolescência.

Se bater e gritar não resolvem – e ainda fazem mal! – o que se pode orientar para a disciplina dos filhos? Em primeiro lugar, reforçar para não usar violência física e verbal! Esse tipo de disciplina, que pode parecer resolver de imediato, não funciona em longo prazo e não ensina sobre responsabilidade e autocontrole. Vale lembrar que, ainda que a maioria dos adultos que apanhou quando crianças sejam adultos felizes e saudáveis, o que temos de estudo atualmente mostram que essa prática está associada a efeitos indesejáveis no futuro.

Algumas recomendações para disciplinar a criança:

  • Para todas as idades, é importante ser carinhoso e demonstrar afeto. Isso também ensina disciplina!
  • Ensine que a disciplina é importante para guiar e proteger a criança, não para puni-la ou para faze-la sentir mal consigo mesma.
  • Em crianças entre 1 e 2 anos, use mais o reforço positivo para os comportamentos desejados do que a punição para o comportamento indesejado. A partir dessa idade, uma boa estratégia para disciplinar por algo que ele fez é o time-out, que consiste em retirar a criança da situação estressante por um curto período de tempo e, em seguida, explicar ou mostrar o que você gostaria que ela tivesse feito.
  • Lembre-se de que, principalmente de 1 a 5 anos, correr, chutar, pular, escalar… em resumo, a necessidade de se manter ativo o tempo todo faz parte da etapa de desenvolvimento da criança. Procure fornecer um ambiente que permita que ela se mantenha ativa de forma segura, de modo que você não precise enchê-la de “não”.
  • Dê atenção e valorize quando seu filho cumpre as instruções.
  • Ensine formas de se manifestar quando está chateado com algo, para que ela saiba que tem alternativas às famosas birras. Ajude-o com o passo-a-passo para resolver algum problema quando ela está chateada. Procure limitar a atenção que você dá aos comportamentos desafiadores.
  • Seja claro e consistente ao dar ordens. Explique e mostre o comportamento que você espera que ela tenha. Quando falar não, explique o que quer que ela faça.
  • Entre os 3 e 5 anos, dê um número limitado de escolhas. Por exemplo, você quer usar a camisa azul ou a amarela?
  • A partir dos 6 anos (principalmente):
    • Ajude a criança a desenvolver senso de responsabilidade, deixando-a ajudar com tarefas de casa, por exemplo.
    • Converse com a criança sobre a importância de respeitar os outros.
    • Ajude a criança a estabelecer metas próprias, que sejam factíveis. Isso fará com que ela ganhe mais confiança em si mesmo.
    • Ensine a criança a ser paciente, ensinando-a a terminar primeiro uma tarefa para depois ir brincar.
    • Estabeleça regras claras e se mantenha a elas, como tempo para assistir TV e hora de ir dormir.
    • Continue toda discussão sobre o que não fazer com o que fazer.
    • Valorize mais as ações da criança que dependem de seu esforço do que de traços que elas não precisam mudar. Por exemplo, “você se esforçou para descobrir isso, parabéns”, em vez de simplesmente “você é inteligente”.
  • A partir dos 8 anos:
    • Ajude a criança a desenvolver um senso de certo e errado. Converse sobre comportamentos de risco que amigos podem pressioná-lo a fazer.
    • Incentive a criança a ajudar quem precisa.
    • Converse com a criança sobre suas conquistas. Prefira “você deve estar orgulhoso de você” em vez de “estou orgulhoso de você”, para que ela se dê conta do que alcançou.
    • Fale com a criança sobre os comportamentos esperados quando não há adultos presentes. Nessa idade, se você der razões para as regras, será mais fácil que ela saiba o que fazer em cada situação, mesmo que não tenha ninguém por perto.
    • Fale com a criança sobre habilidades que ela gostaria de desenvolver e formas de alcança-las.
  • A partir dos 12 anos:
    • Seja honesto e direto quando falar sobre assuntos sensíveis, como drogas, bebida, cigarro, sexo.
    • Ajude o adolescente a fazer escolhas saudáveis, encorajando-o a tomar suas decisões.
    • Deixe claro que você o escuta e que leva suas opiniões e seus sentimentos em consideração.
    • Quando houver conflito, seja claro sobre objetivos e expectativas, como ter boas notas, manter o quarto limpo e mostrar respeito. Permita, entretanto, que o adolescente possa estabelecer formas de atingir os objetivos, como quando estudar ou limpar o quarto.

É natural ter uma série de dúvidas na hora de disciplinar seu filho. É papel de profissionais de saúde ajuda-lo nessa tão importante tarefa. Adultos cuidando de crianças devem usar formas saudáveis de disciplina, como reforço positivo e estabelecimento de limites, sem o uso de punição física ou verbal.

Referências:

  1. Effective Discipline to Raise Healthy Children
    Robert D. Sege, Benjamin S. Siegel, COUNCIL ON CHILD ABUSE AND NEGLECT, COMMITTEE ON PSYCHOSOCIAL ASPECTS OF CHILD AND FAMILY HEALTH
  2. https://www.cdc.gov/ncbddd/childdevelopment/positiveparenting/index.html

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