A prevenção da obesidade começa na infância

FatBoyEatingIllustration.w830.web
https://www.drcarney.com/blog/health-issues/childhood-obesity-creates-future-health-problems

A obesidade pode ser definida como uma complexa rede de fatores sociais e biológicos que expuseram, principalmente nas últimas décadas, nossa vulnerabilidade para o ganho de peso. Enquanto que em adultos definimos a obesidade pelo índice de massa corporal (IMC; aquele valor que obtemos ao dividir o peso pelo quadrado da altura) maior que 30kg/m2, na infância temos diversas definições, sendo uma das mais aceitas o valor de IMC acima de dois desvios-padrão para idade. Para essa constatação, usamos as curvas de crescimento da Organização Mundial de Saúde.

As crianças, em particular, mostram-se cada vez mais vulneráveis, haja visto o significativo aumento da obesidade desde a década de 1980. Nos Estados Unidos, a frequência em que encontramos crianças obesas triplicou nos últimos 40 anos. O aumento da obesidade parece ainda maior em crianças em condições sociais mais desfavoráveis – aumento da obesidade nos Estados Unidos é 5 vezes maior na população negra e quase 3 vezes maior em mexicano-americanos. Na Europa, o IMC mais alto se encontra nos países mais pobres. O aumento das taxas de obesidade em países em desenvolvimento está atrasado em relação aos países desenvolvidos, mas vem com força total, e a batalha não será fácil. No ano passado, o The New York Times publicou uma reportagem sobre como a grande indústria conseguiu aprisionar o Brasil na junk food, através de incentivo na venda produtos industrializados como cookies e afins, nos mais diversos cantos do país.

No início do mês, a conceituada revista de artigos científicos The New England Journal of Medicine publicou um interessante e promissor artigo, intitulado “Aceleração do IMC no início da infância e o risco de obesidade mantida”. A partir de dados de mais de 50.000 crianças alemãs, o estudo teve importantes conclusões:

  • A maioria dos adolescentes (a partir de 16 anos) com peso normal também tinham peso normal durante a infância.
  • Metade dos adolescentes obesos estavam obesos ou com sobrepeso a partir de 5 anos de idade.
  • Quase 90% das crianças que eram obesas aos 3 anos também estavam obesas ou com sobrepeso na adolescência.
  • Entre adolescentes obesos, a maior aceleração do IMC ocorreu entre 2 e 6 anos.
  • A rápida aceleração do IMC nos anos pré-escolares (entre 2 e 6 anos) esteve associada a um maior risco de sobrepeso e obesidade.

Os resultados desse estudo são importantes para reforçar a atenção que deve se dar aos hábitos de vida desde cedo. Acredita-se que o ganho de peso na infância possa levar a uma programação do nosso corpo, facilitando que a obesidade se mantenha na vida adulta.

E qual o problema com a obesidade na infância? A resposta mais clássica é o alto risco de obesidade na vida adulta, que traz consigo problemas já bem conhecidos: pressão alta, diabetes tipo 2, aterosclerose, dislipidemia, risco de infarto e derrame. Entretanto, a obesidade já traz problemas mesmo na infância: crianças obesas tem risco maior de hipertensão, puberdade precoce, síndrome do ovário policístico, apneia do sono, diabetes tipo 1 e 2, problemas osteomusculares e, por último, mas não menos importantes, problemas psicológicos, como baixa autoestima, depressão e problemas de relacionamento.  O diabetes tipo 2, aparecendo de forma mais precoce, permite progressão mais rápida da doença, com suas complicações aparecendo mais cedo do que o previsto. A obesidade infantil, independente do IMC atingido na vida adulta e independente de outros fatores de risco, está associada a um maior número de doenças. Ou seja, mesmo que se consiga perder peso na vida adulta, as consequências da obesidade na infância ainda vão persistir.

A obesidade é um problema de saúde pública e deve ser tratada com a seriedade e o respeito que merece. Fica aqui o alerta a pais, cuidadores, gestores, profissionais de saúde e de educação para que valorizem a infância como um momento único para o estabelecimento de hábitos de vida saudáveis. O que se faz nessa idade não é gasto, é investimento para um futuro saudável e mais livre de doenças.

Referências:

  1. Rajalakshmi Lakshman, MD, PhD1, Cathy E. Elks, PhD, MPhil1, and Ken K. Ong, MB BChir PhD1, 2. (2012). Childhood obesity. Circulation. http://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.111.047738.CHILDHOOD
  2. Sahoo, K., Sahoo, B., Choudhury, A. K., Sofi, N. Y., Kumar, R., & Bhadoria, A. S. (2015). Childhood obesity: causes and consequences. Journal of Family Medicine and Primary Care, 4(2), 187–192. http://doi.org/10.4103/2249-4863.154628
  3. Grossman, D. C., Bibbins-Domingo, K., Curry, S. J., Barry, M. J., Davidson, K. W., Doubeni, C. A., … Tseng, C. W. (2017). Screening for obesity in children and adolescents us preventive services task force recommendation statement. JAMA – Journal of the American Medical Association, 317(23), 2417–2426. http://doi.org/10.1001/jama.2017.6803
  4. Geserick, M., Vogel, M., Gausche, R., Lipek, T., Spielau, U., Keller, E., … Körner, A. (2018). Acceleration of BMI in Early Childhood and Risk of Sustained Obesity. New England Journal of Medicine, 379(14), 1303–1312. http://doi.org/10.1056/NEJMoa1803527

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s