Check-up em crianças: fazer ou não fazer?

when_my_baby_will_speak
http://www.babyspace-saudi.com/ar/50158-كيف-نساعد-الطفل-على-الكلام-؟

O termo check-up médico refere-se a um exame médico para avaliar sua saúde. Na prática, significa realizar exames em pessoas saudáveis, sem sintomas. Eu, como médica e paciente, tenho um pouco de aversão ao termo check-up, pois ele acaba sendo interpretado como a necessidade de realização de exames complementares para sabermos se estamos ou não bem de saúde, dando a falsa ideia de que existem meios de detectar e prevenir problemas de saúde através de alguma intervenção, quando, na verdade, nada substitui nem a boa prática da medicina, embasada numa boa relação médico-paciente, nem hábitos saudáveis de vida. É claro que, em alguns casos, é importantíssimo a realização de alguns exames mesmo em bebês saudáveis, como até já vimos aqui em outras postagens. O problema, como na maioria das vezes, dá-se com os exageros.

Pensando em ajudar médicos e pacientes a realizar apenas o que temos mais comprovação do que é benéfico, diversas entidades lançaram dispositivos para facilitar as escolhas. A força-tarefa norte americana (USPS-Task Force) recomenda alguns cuidados para crianças de até 1 ano de idade, por exemplo. Elas começam até antes do nascimento!

  • Para ser realizado na gestação: teste de HIV e intervenções para a mãe parar de fumar. É essencial para o recém-nascido ter resultado do HIV materno, pois, no caso do exame positivo, há uma série de intervenções que minimizam a chance de infecção na criança. Em relação ao tabagismo, sabe-se que o fumo passivo traz uma série de consequências tanto intraútero, como depois do nascimento.
  • No parto: profilaxia para prevenir conjuntivite gonocócica, a ser realizada até 24 horas depois do parto (é o colírio que se pinga nos olhos dos bebês). Outras medidas importantes para o recém-nascido já vimos nessa postagem aqui e aqui).
  • Uso de flúor para prevenção de cáries: cáries são a infecção crônica mais comum em crianças, chegando a mais de 54% em crianças que vivem abaixo da linha da pobreza! A recomendação de uso de flúor em menores de um ano é recente, mas é reforçada pela Associação Americana de Pediatria, Associação Brasileira de Odontopediatria e pela Sociedade Brasileira de Pediatria. O medo de causar fluorose, que é o excesso de flúor ingerido, pode ser evitado com o cuidado com a quantidade de flúor utilizado pela criança: em menores de 1 ano, a quantidade de creme dental deve ser do tamanho de, no máximo, 1 grão de arroz. Vale lembrar que a água que bebemos também contem flúor, o que justifica ainda mais cuidado na quantidade de creme dental a ser usado.
  • Avaliação de anemia: não temos evidências para dizer que vale a pena investigar anemia em crianças saudáveis. Independente do exame de sangue, há a indicação de suplementação de ferro a partir do 3º mês de vida. Vale lembrar que estamos falando de crianças sem sintomas, em que se quer prevenir No caso de suspeita clínica de anemia, a coleta de exames está indicada.
  • Avaliação de displasia do desenvolvimento do quadril: alguns bebês podem nascer com uma alteração no quadril que, se não identificada e tratada, pode levar a alterações na forma de caminhar. Recomenda-se, com alguma controvérsia, a realização de ultrassom do quadril por volta da 6ª semana de vida para meninas que nasceram em apresentação pélvica ou crianças com alteração no exame físico ou com história na família com esse problema do quadril. Há entidades, entretanto, que indicam a realização do exame apenas se tiver alteração no exame físico.

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, realizar exames sem necessidade não é algo livre de riscos. Por exemplo: radiografias ou tomografias, quando feitas sem ter uma indicação verdadeira, vão nos expor desnecessariamente à radiação. Exames laboratoriais em pessoas saudáveis podem vir com resultados falsamente positivos, exigindo novos exames e gerando tensão nos envolvidos. Sabendo disso, iniciativas no mundo todo, como a Choosing Wisely (algo como Escolhendo sabiamente) alertam para o que existe e o que não existe de evidências para tomarmos determinadas condutas. Em pediatria, por exemplo, foram lançadas algumas ideias que tanto médicos quanto pacientes devem questionar e não realizar rotineiramente:

  • Não usar antibióticos para infecções virais respiratórias, as famosas viroses. Sintomas como tosse, nariz entupido e dor de garganta não devem ser tratadas com antibióticos a não ser que realmente pareça uma infecção que se complicou com infecção bacteriana. Usar antibióticos sem necessidade traz a chance de eventos adversos da medicação e leva à resistência bacteriana. Além disso, custa caro!
  • Não usar medicamentos para tosse em crianças: esses medicamentos não trazem benefícios para tratar a tosse e ainda possuem riscos de overdose acidental.
  • Não realizar tomografia de crânio para batidas leves na cabeça: os traumatismos cranioencefálicos leves são muito comuns em crianças e adolescentes e não precisam de tomografia de crânio para sabermos que são leves – novamente, história e exame físico bem feitos, acompanhados de um tempo de observação, são melhores e mais seguros para a avaliação. Existe a preocupação de expor a criança a uma alta dose de radiação, que aumenta o risco de câncer em longo prazo.
  • Crise convulsiva febril não precisa de exame de imagem: quando conseguimos saber bem a história do que aconteceu e examinamos a criança de forma adequada, não é necessária a realização nem de tomografia, nem de ressonância rotineiramente.
  • Não usar medicação pra refluxo para os bebês regurgitadores felizes: para bebês em que o refluxo só causa problema porque suja demais a roupinha, não é necessário usar tratamento. Devemos tratar apenas quando o refluxo é doloroso e/ou afeta o crescimento.

O objetivo desse texto é alertar para que não existem pacotes fechados de procedimentos ou exames que devem ser feitos de rotina para todos. A melhor avaliação de sua criança deve ser feita através de um acompanhamento de rotina, com alguém que conheça a família e que estabeleça uma relação de confiança. E, principalmente, a principal contribuição que se pode fazer para a saúde da criança é criá-la cercada de amor, com alimentação saudável, em ambiente seguro e apropriado para brincar e crescer dentro do seu maior potencial.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s