Como iniciar a alimentação complementar do bebê?

chef kitchen cooking baby
Foto por Pixabay em Pexels.com

Na Medicina, existe uma máxima de que, quanto mais respostas temos para a mesma pergunta, menos se sabe sobre o assunto. A forma de iniciar a alimentação complementar segue esse padrão. A alimentação depende de muita influência cultural e comportamental, portanto, é comum termos diferentes tipos de orientação e, dificilmente, temos como dizer que algo está categoricamente certo ou errado. Aqui, vamos falar sobre o que é mais comumente aceito na comunidade médica, seguindo orientações do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Iniciamos a alimentação complementar do bebê tradicionalmente aos seis meses de vida. Ela é chamada de complementar porque a principal fonte da alimentação do bebê continua sendo o leite materno (ou a fórmula láctea, nos casos em que o aleitamento materno não foi possível).

O início da alimentação complementar é individualizada, e deve ser baseada na percepção de alguns sinais de que o bebê está pronto para se alimentar, como, por exemplo, sentar sem apoio (ou com pouco apoio) e abrir a boca e se inclinar em direção à comida.

Algumas recomendações para este início:

  • Manter o aleitamento como fonte principal de alimentação. Conforme for aumentando a aceitação dos alimentos, a quantidade de leite vai gradualmente diminuindo. Quando iniciamos a alimentação complementar, o leite materno ou a fórmula devem ser oferecidos após o alimento complementar. Por exemplo, oferecer a fruta e depois o leite.
  • Iniciar com um alimento diferente por vez, para que se possa avaliar aceitação, sinais de intolerância ou alergias. Por volta do sétimo ao oitavo mês, os bebês devem ter experimentado vários tipos de alimentos. Devemos tentar não misturar os alimentos no início, para que eles possam sentir o gostinho de cada um.
  • Não custa reforçar: o açúcar está categoricamente fora da introdução alimentar – esse é um bom exemplo dos poucos consensos que existem! O gosto para o doce não precisa ser aprendido, é como se já nascêssemos prontos para gostar dele. Ao introduzir esse tipo de alimento precocemente, podemos interferir no gosto pelos outros alimentos.
  • Oferecer os alimentos na consistência de purê. Aos poucos, a consistência dos alimentos pode aumentar, até transicionar para a mesma alimentação da família, por volta do primeiro ano de vida. Os alimentos não devem ser nem batidos no liquidificador, nem peneirados, pois isso diminui a oferta de nutrientes.
  • Não atrasar o início de alimentos considerados de risco para alergia, como ovo, peixe, glúten, amendoim. Temos evidências suficientes para orientar o início desses alimentos junto com o início da alimentação complementar, pois, ao contrário do que se acreditava antigamente, o atraso na introdução desses alimentos está associado a maior risco de alergias.
  • Oferecer todos os tipos de carne e ovos, desde que cozidos, desde o início. A carne deve ser ingerida pelo bebê, não só o molho. O costume de apenas cozinhar junto com o restante da comida ou de deixar só chupar a carninha prejudica a quantidade de proteína e de ferro total da dieta.
  • Não utilizar sucos de fruta como substitutos de frutas ou de leite materno/fórmula infantil. Os sucos de fruta são considerados alimentos de baixa densidade calórica, ou seja, ocupam muito espaço na barriga sem fornecer vitaminas e calorias suficientes. Preferir sempre a fruta ao suco!
  • Para bebês que tomam quantidade adequada de leite (em torno de 500ml), não é necessário dar água, a não ser em dias de muito calor. Recomenda-se oferecer pequenas quantidades de água assim que o bebê conseguir tomar em copinhos.
  • Oferecer o mesmo alimento, no mínimo, 10 vezes. É natural que o bebê enrole a comida na língua, coloque para fora e até cuspa no início da alimentação – isso não significa que ele rejeitou o alimento e não deve servir de referência para não oferecê-lo novamente.
  • Temperar bem os alimentos, sempre escolhendo temperos caseiros, como óleo vegetal, cebolinha, salsa, cebola, alho… o sal não é necessário para temperar a comida do bebê – aliás, a preocupação com excesso de sal deve existir em todas as idades, pois o excesso de sódio, principal componente do sal, está relacionado a maior risco de hipertensão arterial, a pressão alta. Portanto, podemos aproveitar o paladar virgem do bebê para acostumá-lo com alimentação mais saudável. Se, ainda assim, optar-se por temperar a comida incluindo o sal, deve-se ter o cuidado de usá-lo em pequena quantidade.
  • O bebê apresenta alguns sinais de que está pronto para pegar alguns alimentos já por conta própria, como movimentos de mastigação, explorar alimentos e levá-los à boca, bem como fazer com as mãos o movimento de pinça. Para permitir que o bebê coma algum alimento sozinho, deve-se estar atento ao seu formato (evitar os pequenos e redondos) e textura (evitar os duros): alimentos de maior risco de engasgo são uvas inteiras, amendoim, cenoura crua, maçã, uva passa, balas e pipoca. Lembrar-se também de remover as sementes das frutas antes de oferecer aos bebês!
  • Prestar atenção em sinais de que o bebê está satisfeito: quando ele não quer mais, ele se vira para longe da comida. Apesar de pequenos, eles são capazes de reconhecer quando já estão satisfeitos! Forçar a ingestão de alimentos pode atrapalhar o reconhecimento dos sinais de saciedade e ter como consequência a obesidade no futuro.
  • Não se deixar convencer por estratégias de marketing, com propagandas de alimentos específicos para criança. Alimentos naturais e menos processados são opções mais saudáveis, saborosas e nutritivas! Novamente, todo mundo já sabe, mas não custa reforçar: consumo de alimentos ricos em gordura e açúcar, como frituras, bolachas, refrigerantes, balas e salgadinhos estão ligados ao excesso de peso e ao desenvolvimento de doenças.
  • Muita atenção aos cuidados de higiene! Não se deve oferecer sobra que não foi bem guardada nem das papinhas nem das mamadeiras. Os alimentos devem ser bem cozidos e os utensílios bem lavados com água limpa. As refeições podem ser armazenadas em geladeira, em recipiente limpo, com temperatura de 4 ̊C ou menos, por no máximo 5 dias.  Se for congelar, o alimento deve ser descongelado dentro da geladeira ou direto no microondas ou em banho-maria, para ser preparado e oferecido em seguida.
  • Reservar cerca de 20 minutos para as refeições, com atenção voltada para este momento. Não utilizar artifícios como vídeos, brinquedos ou outras distrações durante o período da refeição. Assim como funciona para nós, é importante que a alimentação tenha seu momento único. Pense em como é mais difícil percebermos nossos sinais de saciedade quando comemos, por exemplo, em frente da TV, que fica fácil entender que a regra também vale para os pequenos.
  • Estabelecer horários regulares para alimentação: 3 refeições principais (café da manhã, almoço e janta) e 2 a 3 lanches, com intervalo de 2 a 3 horas entre as refeições. No início da alimentação complementar, não há necessidade de tanto rigor com os horários, mas é importante ter em mente que, em breve, a alimentação será feita em conjunto com a família. Evitar o acesso ilimitado a alimentos e bebidas, para não criar o hábito de beliscar – muito importante para prevenir a obesidade no futuro! Além disso, o estômago deles é pequeninho, permitir os beliscos atrapalha na aceitação das refeições principais.
  • O semblante alegre e o contato visual de quem oferece o alimento também influenciam na sua aceitação. Torne o momento da alimentação em algo prazeroso!
  • Não usar a alimentação como recompensa ou castigo – alimento tem a função principal de alimentar. Ter uma boa relação com a comida passa por aprendermos desde cedo qual é sua função.
  • Lembrar que a introdução da alimentação complementar é um período de transição para a alimentação da família. Por isso, se esperamos que o bebê e a criança se alimentem bem, é essencial que a família toda coma bem!

Quais são os grupos de alimentos que devem estar presentes na alimentação do bebê?

  1. Cereais, raízes e tubérculos: arroz, aipim/mandioca, milho, batata, batata- doce, mandioquinha, cará, inhame, fubá, macarrão…
  2. Legumes e verduras: folhas verdes (espinafre, alface, rúcula, couve), beterraba, cenoura, abobrinha, abóbora, tomate, repolho, acelga, brócolis…
  3. Carnes e ovos: frango, boi, peixe, porco, miúdos (são ricos em ferro!), ovos.
  4. Grãos: feijão, ervilha, lentilha, grão-de-bico, soja…
  5. Frutas: Costumam ser os primeiros alimentos a serem iniciados. Exemplos: maça, banana, laranja, abacate, mamão, melancia, limão, pera…

Um esquema de como podemos introduzir os alimentos está abaixo. Podemos começar no sexto mês, com uma fruta no meio da manhã, depois de 1-2 semanas começar com a fruta no meio da tarde e, depois de 1-2 semanas, com a refeição do almoço. As porções são pequenas mesmo, é esperado que eles comam pouquinho! No início, são de 2 a 3 colheres de sopa, que devem ser aumentadas gradativamente, conforme a aceitação. No sétimo mês, deve chegar em algo torno de 2/3 de uma xícara. Entre o nono e o décimo-primeiro mês, passa para ¾ de xícara, até atingir 1 xícara cheia ao completar um ano de vida.

Ao completar 6 meses Ao completar 7 meses
Leite materno à vontade Leite materno à vontade
Fruta (raspada ou amassada) no meio da manhã Fruta (raspada ou amassada) no meio da manhã
Refeição almoço amassada (contendo alimentos dos grupos 1, 2, 3 e 4) Refeição almoço amassada/em pedaços pequenos e bem cozidos (contendo alimentos dos grupos 1, 2, 3 e 4)
Fruta (raspada ou amassada) no meio da tarde Fruta (raspada ou amassada) no meio da tarde
Refeição janta amassada/em pedaços pequenos e bem cozidos (contendo alimentos dos grupos 1, 2, 3 e 4)

Um material que considero excelente para ajudar nessa fase é o ­­­­“Comida de bebê”, disponível no canal do Youtube Panelinha, da apresentadora Rita Lobo (a linda e carismática apresentadora do Cozinha Prática, na GNT). Esse material foi criado com o apoio do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo e do SENAC São Paulo e consiste em vídeos para auxiliar na introdução alimentar de forma adequada. Introduzindo o conceito do PFinho (prato feito, no diminutivo), ele incentiva o início dos alimentos de forma adequada, contribuindo para uma vida saudável não só do bebê, mas de toda a família. Vale a pena conferir!

A alimentação complementar do bebê é um momento importantíssimo para sua vida e de toda família. É uma ótima oportunidade para reforçar ou mesmo estabelecer hábitos de vida saudáveis para todos os envolvidos. Aproveite essa fase!

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