O que esperar quando se está esperando? Parte II

baby holding human finger
Foto por Wayne Evans em Pexels.com

Na última semana, vimos um pouco sobre os acontecimentos na vida de um recém-nascido, com foco no período da internação após o nascimento. Agora, veremos um pouco mais dos momentos seguintes do bebê.

O primeiro mês de vida é o melhor momento para o estabelecimento do aleitamento materno. Já falamos sobre isso em outras postagens, mas vamos reforçar mais um pouco. Muito se fala sobre o aleitamento materno à livre demanda, mas o que isso significa? Bem, é isso mesmo… o bebê mama à vontade, na hora que quiser, o quanto quiser. Esse modo de amamentar garante que a mãe receba o estímulo necessário para produzir quantidades adequadas de leite. Nesse primeiro mês, recomenda-se que o bebê não fique mais de três horas sem mamar, já que sua reserva energética ainda é pequena. Estar tranquila e focada na amamentação ajuda na liberação da ocitocina, responsável por produzir um leite mais gorduroso, que ajuda no ganho de peso do bebê. Observar urina nas fraldas do bebê pelo menos 6 vezes em 24 horas é um bom sinal de que o bebê está mamando. A reavaliação em serviço de saúde é importante para tirar dúvidas sobre a amamentação e verificar o ganho de peso do bebê. Como regra geral, consideramos que a alimentação vai bem quando o bebê ganha em média cerca de 30 gramas por dia – as avaliações sequenciais, mais do que uma avaliação única, são mais importantes do que o valor do peso e continhas de matemática. Lembro, novamente, que o estabelecimento da amamentação pode ser um período desafiador e até difícil, e que as mães merecem todo o apoio tanto para incentivar o aleitamento materno, quanto para apoiar quando surgirem as dificuldades.

Uma dúvida bem comum nesse período são os cuidados com a pele do bebê, que já iniciam desde o nascimento. Sua pele deve ser secada de forma gentil e o banho é recomendado após 24h de vida (pelo menos 6h, a não ser em casos em que o banho precoce seja recomendado pelo risco de transmissão de doenças) e deve ser feito com água morna e sem sabonetes agressivos. O vérnix, uma camada branca e gordurosa que cobre a pele do bebê, deve ser mantido o mais intacto possível, permitindo que ele somente saia quando estiver seco e descascando. O banho parece mais agradável e melhor tolerado quando é feito em banheira em vez de limpeza com esponja/paninhos. O nível de água até a altura dos ombros do bebê parece ter efeito de acalmar e reduz a perda de calor. A Associação Americana de Pediatria recomenda que o banho seja de banheira apenas após a queda do cordão umbilical – o que não é muito seguido aqui. O que concordamos é que o banho deve ser feito somente com água ou sabonetes com pH neutro, sem fragrância ou corantes – ou seja, o cheirinho de bebê é bom só pra gente mesmo! A mesma regra vale para o uso de hidratantes: pH neutro a levemente ácido, sem fragrância ou corantes e de consistência mais espessa. A frequência de banhos do bebê é guiada muito pela cultura de cada região. No primeiro mês de vida, não há necessidade de mais de 1 a 2 banhos por semana – lembre-se de que os locais em que o bebê mais se suja – a face e o bumbum! – são limpos bem frequentemente! A temperatura ideal do banho é em torno de 38°C, não devendo passar dos 48°C. Deve-se cuidar, também, para manter a temperatura do ambiente adequada.

Devemos ter um cuidado especial com a pele que fica em contato com as fraldas, pelo risco de assaduras. A cada troca, deve-se limpar suavemente a região com água morna e algodão ou fralda de algodão (guardemos os lenços umedecidos para situações especiais, apenas para facilitar a troca de fraldas fora de casa, por exemplo) e aplicar o que chamamos de cremes de barreira, produzidos a base de óxido de zinco, idealmente sem fragrância e sem corantes, para minimizar as chances de alergia. Quando for trocar a fralda novamente, não é necessário remover toda a camada de creme, pois ela vai formando uma barreira na pele do recém-nascido, evitando assim as assaduras, chamadas de dermatite de fralda.

Nessa fase, podemos ter a impressão de que o bebê só dorme. Essa impressão tem um certo embasamento, pois nos dois primeiros meses, num período de 24 horas, os bebês dormem em média 14,5 horas, podendo chegar até 20 horas! O estado de sono-vigília, que tem relação com o ritmo circadiano, que é a noção de dia e noite, bem como sua regulação, variam muito no primeiro ano de vida. Os recém-nascidos não tem um ritmo circadiano muito bem estabelecido, isto é, não sabem ainda diferenciar dia e noite, e seu padrão de sono se distribui de forma mais ou menos igual durante o dia e a noite, com períodos curtos de sono, interrompidos pela frequência da alimentação. Lá pelo 2º mês de vida, o ritmo circadiano começa a se estabelecer a passa a predominar o sono noturno. O estabelecimento de uma rotina, com rituais para dormir, ajuda a criança a pegar no sono. Falar de sono do bebê e da criança é tema suficiente para postagem exclusiva, mas reforço aqui um ponto importante: a forma considerada mais segura para o bebê dormir é no próprio berço, colocado no quarto dos pais, virado de barriga pra cima, sem travesseiros ou cobertas.

Tem quem diga que bebê só come e dorme… e tem quem diga que quem falou isso, provavelmente não teve bebê! O expressivo número de cerca de 200 trocas de fraldas no primeiro mês de vida mostra que dá pra comer, dormir e ainda sobra um bom tempinho para o número 1 e 2! As fezes do bebê têm uma característica peculiar: logo após o nascimento, são bem escuras e pegajosas, chamadas de mecônio. Já nos primeiros dias, adquirem característica amarelada/esverdeada, de consistência cremosa. A frequência da evacuação é muito variável: bebês em aleitamento materno podem evacuar desde após cada mamada, como ficar de 7 a 10 dias sem evacuar. Nesses casos, é importante observar se o bebê elimina gases, se a barriga está molinha e sem dor.

E outra coisa que o bebê pode fazer bastante é chorar. O choro considerado excessivo foi a 2ª causa mais frequente de consultas em atendimento de emergência em um hospital de Portugal. Felizmente, na grande maioria das vezes, o choro é normal, mesmo em casos que o bebê chore por 2 horas consecutivas! Bebês que apresentam as seguintes características dificilmente terão alguma doença que justifique o choro:

  • acordam espontaneamente para mamar;
  • mamam de 8 a 12 vezes ao dia;
  • apresentam xixi na fralda de 6 a 8 vezes por dia;
  • respiram normalmente;
  • movimentam braços e pernas.

O bebê pode chorar por estar com fome ou cansado, e o próprio cansaço dificulta que ele pegue no sono. O bebê cansado franze o rosto, fica de punhos fechados, chora e pode ser difícil de ser consolado. Recomenda-se acolher o bebê no colo e coloca-lo no berço assim que ele se acalmar. Deixar o bebê ouvir barulhos constantes, como o de uma máquina de lavar roupa; andar com o bebê com um sling ou canguru; andar com o bebê no carrinho em locais que passam por uma lombada, como a borda de um tapete; ou um banho relaxante podem ajudar o bebê a relaxar e dormir.

Caso o bebê apresente algum dos sinais abaixo, deve-se passar por avaliação médica para melhor esclarecimento:

  • febre;
  • vômitos de cor esverdeada;
  • parada de eliminação de gases;
  • choro fraco;
  • braços e pernas esticados e molinhos;
  • recusa ou dificuldade para mamar;
  • fezes líquidas, com pus ou sangue.

As cólicas costumam iniciar ainda no primeiro mês de vida, por volta da 3ª semana, e também são causas comuns de choro. A cólica do bebê é definida por um período de choro de 3 horas, não necessariamente consecutivas, em 3 dias da semana, por 3 semanas. Estudam-se várias teorias para explicar o porquê da cólica, mas ainda não há respostas satisfatórias. Como não sabemos bem o que é, também não sabemos como tratar… o consolo é que a cólica se resolve até o 3º mês de vida e que ela não é sinal de nada mais grave.

A ideia dessa postagem dupla foi de esclarecer dúvidas frequentes que presenciamos no primeiro mês de vida do bebê. O que não se consegue transcrever aqui é a felicidade e a alegria que sentimos em cada cuidador que passa por esse fantástico primeiro mês de vida. Que esse momento seja – ainda que cheio de dúvidas e inseguranças – repleto de boas descobertas e permeados por muito amor e carinho!

 

4 thoughts on “O que esperar quando se está esperando? Parte II

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