É só um resfriado…

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… mas dá um trabalho!

O resfriado comum é considerado a infecção mais frequente e é uma das principais causas de consultas médicas em emergência e consultório. Nos Estados Unidos, o resfriado sozinho é responsável por 22 milhões de dias de escola perdidos e 20 milhões de faltas no trabalho dos cuidados no período de um ano. As crianças, além de pegarem mais resfriados, tem também uma duração maior dos sintomas. Ainda assim, é tida como uma doença autolimitada, ou seja, resolve-se sozinha.

Antes de aprofundarmos o tema, vale a pena nomear e diferenciar: o resfriado comum é uma infecção causada por mais de 100 diferentes tipos de vírus, que acomete as nossas vias aéreas superiores (nariz, garganta, laringe), causando nariz entupido, coriza, tosse, espirros e dor de garganta. É também chamado de infecção de vias aéreas superiores, rinofaringite viral e nasofaringite viral. A gripe é uma infecção respiratória causada pelo vírus influenza, causa sintomas semelhantes ao resfriado comum, mas que também é acompanhado de mal-estar e dor no corpo em maior intensidade, dor de cabeça, febre alta.

Existem mais de 100 tipos de rinovírus, que é a família de vírus que nos causa infecção com maior frequência. Além dele, há também outras famílias que podem causar a mesma doença, como enterovírus e coronavírus. Essa quantidade enorme de agentes infecciosos ajuda a explicar porque as crianças pegam tantos resfriados e também o motivo de, muitas vezes, um resfriado ser tão diferente do outro.

Os resfriados podem ocorrer durante todo o ano, mas eles são mais frequentes no outono e inverno. Os resfriados são mais contagiosos até o 4º dia de doença. A forma de contágio pode ocorrer por contato direto (exemplo: uma criança encosta na mão de alguém com resfriado e depois encosta na sua própria boca, olhos ou nariz) ou por contato indireto (exemplo: uma criança encosta a mão em um brinquedo que foi tocado por outra pessoa que estava resfriada e depois leva as mãos aos olhos, boca ou nariz). Menos comumente, a infecção pode ocorrer por inalarmos partículas do vírus, que foram expelidas com a tosse ou mesmo com a própria respiração.

Quais os principais sintomas?

Os sintomas do resfriado iniciam, em média, dois dias após pegar a infecção. Costumam ser piores nos primeiros três dias. Os mais comuns são:

  • Febre: caracterizada por temperatura acima de 38 graus, geralmente está presente nos primeiros três dias da doença.
  • Obstrução nasal/nariz entupido: é o sintoma mais comum em crianças.
  • Secreção nasal: pode ser transparente (coriza), amarela, verde… a cor da secreção não tem relação com a gravidade nem com o agente que está causando a doença.
  • Dor de garganta;
  • Tosse – é frequentemente um dos sintomas que mais incomoda (às vezes até mais os pais do que a criança!);
  • Dor no corpo, mal-estar;
  • Diminuição do apetite.

É frequente os sintomas durarem 10 dias, podendo facilmente chegar a três semanas. Uma preocupação bem comum de quem cuida de crianças é a sensação de que a criança está sempre resfriada, ou que não melhora nunca. Cada caso deve ser avaliado individualmente, junto com outras características, como padrão de crescimento e outros sintomas associados, mas veja essa informação: crianças saudáveis, de até 6 anos de idade, podem ter até 8 resfriados por ano (nas crianças menores e frequentadoras de creche, pode ser até mais). Nos meses de outono e inverno, podem ter um resfriado por mês. Se cada episódio pode durar três semanas (às vezes até um pouco mais), fazendo as contas… dá quase a impressão de que faltam dias no ano, não é? Esse cenário descrito é de uma criança saudável, sem nenhuma outra doença. Isso é muito melhor percebido e mais facilmente diferenciado de condições de alerta quando a criança é seguida pelo mesmo médico de família ou pediatra do que quando frequenta apenas a emergência. É importante lembrar também que quadros de rinite alérgica podem se assemelhar a um resfriado comum, pois também podem ter espirros e deixar o nariz escorrendo e entupido. Na rinite alérgica, porém, não há febre, e chama atenção os sintomas de coceira em olhos, nariz, garganta e ouvidos.

Algumas vezes, o resfriado comum pode servir de porta de entrada para outras infecções mais graves, como infecção de ouvido (otite média aguda), pneumonia e sinusite. Ainda, o resfriado comum pode ser responsável por desencadear crises de asma. As dicas de que um resfriado comum pode ter complicado com alguma dessas condições são: sensação de falta de ar ou respiração rápida e/ou com esforço, febre persistente por mais de três dias, dificuldade para aceitar líquidos (lembrando que mesmo o resfriado comum pode levar à diminuição do apetite, mas alguma coisinha a criança tem que comer e beber!), dificuldade para manter a criança acordada, irritabilidade, olhos e boca secos. Caso perceba alguma dessas alterações, o ideal é levar a criança para avaliação médica.

OK, já vimos o que é o resfriado, o que ele causa, que ele é muito frequente e que, às vezes, pode complicar… mas e o que nós faremos com ele?

Pois é, não tem muito o que fazer para tratar o resfriado. Ele incomoda, mas vai embora sozinho. O que melhor se sabe até agora são as seguintes medidas de conforto:

  • Uso de mel para alívio da tosse, para crianças maiores de um ano. Vale a pena tentar um melzinho, principalmente à noite antes de dormir (só não se esquecer de escovar os dentes!), para acalmar a tosse. Existe uma preocupação de o mel causar botulismo em menores de um ano, por isso não é recomendado antes dessa idade. 
  • Limpeza nasal: a higiene nasal ajuda bastante no alívio do nariz entupido e da secreção nasal. Pode ser feito de várias formas: pingar gotas de soro fisiológico no nariz, que ajuda por fluidificar a secreção e, assim, facilita sua remoção (tanto ao assoar ao nariz como por facilitar que a secreção seja engolida e saia nas fezes); spray de soro fisiológico, que funciona semelhante às gotas, mas é mais fácil para crianças maiores; e, o meu preferido, soro fisiológico com uma seringa. Não achei nenhum estudo que compare essas técnicas, mas a impressão é que, com a seringa, ocorre uma maior remoção das secreções. O ideal é posicionar a criança na posição sentada ou em pé, utilizar soro fisiológico morno, para melhor conforto, aspirar de 1ml (para os bebês) até 10ml (para crianças maiores) com a seringa, e colocar o jato em ambas as narinas. Tem diversos vídeos no Youtube ensinando como fazer. Caso a criança tenha realizado alguma cirurgia recente no nariz ou tenha algum outro problema na formação de nariz, boca e ouvidos, deve-se consultar o médico responsável para avaliar como é a melhor forma de fazer a higiene nasal.

Um estudo comparou crianças entre 6 e 10 anos que realizaram higiene nasal 6 vezes ao dia com crianças que não realizaram: as crianças que seguiram a higiene nasal tiveram melhora dos sintomas de obstrução nasal, secreção nasal, dor de garganta e tosse. Em longo prazo, as crianças que fizeram a higiene adequada utilizaram menos antibióticos do que as que não fizeram.

  • Umidificação do ar e inalação de vapor (nebulização com soro fisiológico): pode aliviar o nariz entupido.
  • Medicação para alívio de febre e mal-estar: paracetamol, dipirona e ibuprofeno podem ser usados para alívio dos sintomas. Esses medicamentos não servem para eliminar o vírus, somente para melhorar o bem-estar. Vale lembrar que a aspirina não é mais recomendada para alívio dos sintomas.
  • Tomar líquidos: a febre e a menor ingesta de alimentos podem levar à desidratação, portanto, é importante ofertar quantidade adequada de líquidos para as crianças.

Além de falar do que ajuda, é importante alertar para medicações que são consideradas de risco. Xaropes, corticoides (por inalação, por boca ou por nariz), opioides, descongestionantes e antialérgicos não devem ser usados para o tratamento do resfriado comum. A entidade norteamericana Food and Drug Administration, que regula o uso de medicações, e a Associação Americana de Pediatria alertam para os possíveis riscos de medicamentos para resfriado comum que contenham pseudoefedrina, anti-histamínicos, codeína, entre outros. É um risco que não vale a pena correr, uma vez que esses medicamentos não ajudam no tratamento do resfriado. Na medicina, cada vez mais vemos que menos é mais!

Não custa reforçar que, assim como em todas as doenças virais/viroses, antibióticos não funcionam. Eles podem ser necessários nos casos de complicação de resfriado, mas exigem uma boa avaliação médica antes de serem prescritos. E, como não tem como prever as crianças que vão desenvolver alguma infecção bacteriana como complicação do resfriado, não adianta dar um antibiótico pensando em evitar essa infecção. Antibióticos em excesso são responsáveis por aumentar a resistência das bactérias e possuem risco de alergias, além de efeitos colaterais como, por exemplo, diarreia.

Melhor prevenir que remediar – ainda mais quando o remediar nem funciona tanto assim! Já é bem sabido que exposição a cigarro aumenta a chance de ter resfriados, bem como a exposição a poluição. Crianças que frequentam creche também tem mais chance de pegar a doença. No caso de a creche ser indispensável, vale o consolo de que essas crianças, quando chegam na fase escolar, parecem ficar menos doentes quando comparadas a crianças que não foram à creche.

Medidas simples de higiene são essenciais para prevenir infecções: lavar as mãos, por 15 a 30 segundos, com água e sabão comum (não é necessário nem recomendado os sabonetes antibacterianos), ou passar álcool nas mãos, esfregando até secar, quando não houver sujeira visível, ajudam bastante a interromper o ciclo de transmissão do vírus. A limpeza da casa com álcool também parece ajudar a eliminar os vírus das superfícies. O afastamento da escola/creche deve ser mais baseado nos sintomas da criança do que na intenção de diminuir a transmissão, já que ela acaba ocorrendo antes mesmo de apresentar sintomas.

Um tratamento importante para o resfriado comum, mas pouco falado, é a orientação e tranquilização de pais e cuidadores. Uma boa explicação sobre o que é a doença e o que se espera que aconteça aumenta a confiança dos pais para lidar com os diversos episódios de resfriado que fazem parte da infância.

Palavras-chave: resfriado comum; soro fisiológico.

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