Tempo de tela: qual seu impacto na vida das crianças?

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SbytovaMN/Thinkstock

Na área da saúde, chamamos de tempo de tela o tempo dedicado aos diversos tipos de distrações que utilizam telas luminosas, como smartphones, tablets, computadores, televisões, videogames passivos. Nas últimas décadas, pesquisas sobre a influência do tempo de tela em nossas vidas são cada vez mais frequentes, devido justamente à importância que esses dispositivos ganharam em nosso dia-a-dia. Se, de um lado, é fácil perceber que maratonas no Netflix podem ser um verdadeiro atraso de vida, o impacto nas crianças da exposição excessiva a telas, como desenhos ou joguinhos, ainda gera muita pesquisa e discussão. Mesmo que faltem resultados definitivos, a velha sabedoria de que o que é demais faz mal se aplica muito bem aqui.

E será que é, de fato, tempo demais que se passa em frente às telas? No Reino Unido, quase 40% das crianças entre 4 e 6 anos passam mais de 2 horas por dia em frente às telas. Na Suécia, 50% das crianças de 3 a 4 anos usam tablets e uma em cada 4 usa smartphones. Para as crianças menores, é comum a justificativa do uso de dispositivos eletrônicos para acalmá-las – acredita-se que 68% das crianças norte-americanas de até 2 anos de idade passem cerca de 2 horas por dia em frente às telas, e que esse tempo vai aumentando com o avançar da idade. As recomendações australianas e norte-americanas para o tempo de tela são: até os dois anos, não se indica exposição às telas. De 2 a 6 anos, é recomendado até uma hora por dia de tempo de tela. Essas faixas de idade podem ser consideradas de ouro, já que muito do comportamento futuro se molda aqui.

A preocupação com o tempo de tela é uma questão de saúde pública, ou seja, novamente, não se deve deixar os pais sozinhos nessa. Tempos de tela excessivos estão associados a famílias de menor renda e minorias étnicas. A relação com a escolaridade dos pais é controversa, já que alguns estudos encontraram que menor tempo de estudo se associa a maior tempo de tela, mas também outros não encontraram associação alguma.  A teoria bioecológica, criada por Urie Bronfenbronner em 1977, reforça que o meio em que vivemos é importante: o desenvolvimento da criança é um conjunto de quatro dimensões que agem entre si: processo (interações entre a criança e pessoas, objetos e símbolos próximas de sua convivência), pessoa (fatores genéticos e biológicos), contexto (o ambiente onde vive) e tempo (grau de estabilidade ou mudança que ocorre na vida da criança). Essa teoria nos ajuda a entender o quão importante as telas podem ser na formação da criança, pois podem modificar a forma de interação, passando de uma interação ativa, brincando com outra pessoa, para uma interação passiva, em que apenas recebe o estímulo.

Existem várias razões para não deixarmos pais e seus filhos em paz com seus smartphones e afins. Tempo de tela excessivo parece atrasar o desenvolvimento motor, crucial para a realização de atividade física no futuro. Esse é um dos motivos de nos preocuparmos tanto com a exposição a telas em menores de 3 anos, já que é até essa idade que se atinge marcos importantes do desenvolvimento, como andar, e o contato precoce com telas pode interferir nesses marcos. Estudos indicam que parece haver uma associação entre o tempo de tela e a obesidade, pelos seguintes fatores: o tempo de tela ocupa o tempo de atividade física; há um maior consumo de alimentos durante o tempo de tela (a saciedade pode passar despercebida quando estamos distraídos com um programa de TV, por exemplo); televisão e outras mídias podem oferecer propagandas de alimentos considerados de alta densidade calórica; e pela alteração do sono. O uso de dispositivos eletrônicos próximo a hora de dormir comprovadamente atrasa ou interrompe o sono, tanto por conteúdos estimulantes quanto pela luz emitida. Sabe-se que essa luz pode ser responsável por atrapalhar nosso ritmo circadiano, esse que é responsável por nos dar a noção de dia e noite. Altos índices de tempo de tela estão associados a um pior desenvolvimento da linguagem e piores desfechos sociais e acadêmicos. Limitar o tempo de tela reduz problemas de atenção, melhora a alimentação e o sono, reduz o risco de obesidade e aumenta a atividade física. A prática de atividade física regular, com mínimo comportamento sedentário, é essencial para o crescimento adequado dos menores de 5 anos.

Lembrando mais um velho ditado, o “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” deve ser evitado pelos pais, pois estudos mostram que pais que passam mais tempo em frente à televisão também tem filhos que ocupam seu tempo da mesma forma. Além disso, a exposição a telas de forma passiva, ou seja, quando a criança não está diretamente assistindo, mas está convivendo com televisão e afins, já é suficiente para diminuir a interação entre crianças e cuidadores.  Precisa de estudo pra dizer isso? Pois é…

Hábitos saudáveis são importantes em todas as idades, mas vale reforçar que os estabelecidos quando somos bem novinhos possuem mais chance de perdurar na vida adulta, tanto os bons, quanto os ruins. Se usamos a Galinha Pintadinha por um tempinho para dar conta de cuidar do filho e de algum afazer da casa, por exemplo, que saibamos que isso é feito para o nosso benefício, não para o dele. Que todos os esforços, individuais e de sociedade, se voltem para criarmos crianças saudáveis, felizes e com o maior potencial de manterem essas características na vida adulta.

Palavras-chave: tempo de tela, desenvolvimento, bioecologia.

Referências:

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