Por que Donald Trump e amamentação estão aparecendo na mesma frase?

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Retirado do site: https://www.glistatigenerali.com/america-mondo_geopolitica/trump-you-never-can-tell/

Não, não é pela política de controle de imigração e também não tem a ver com o bebê Trump inflável na Inglaterra. Delegados de centenas de países se reuniram em Genebra, pela Organização Mundial de Saúde, em maio deste ano, para reforçar políticas de apoio ao aleitamento materno para o binômio mãe-bebê, e recomendar que os países limitem e fiscalizem materiais com informações inexatas ou inadequadas sobre fórmulas lácteas infantis (leite de vaca modificado e acrescido de nutrientes).

Segundo noticiado agora em julho, no The New York Times, os delegados dos Estados Unidos optaram por apoiar as indústrias produtoras de fórmula, pedindo que se retirasse da resolução o texto “proteger, promover e apoiar o aleitamento materno” e a suspensão de políticas que restringem a promoção de diversos alimentos reconhecidos como danosos às crianças. Felizmente, o pedido não foi aceito, mas não sem ainda mais polêmica: os delegados do Equador foram pressionados para que votassem com os Estados Unidos, pois, caso contrário, perderiam o apoio militar que já havia sido prometido. Além do Equador, outros países latino-americanos também foram “chantageados”, até que a Rússia entrasse em jogo e acabasse com a brincadeira. E tem quem ainda acha que falar de Pediatria não é emocionante… dá até filme essa história! Os lobistas das indústrias de alimentos infantis (que movimenta apenas US$70 bilhões ao ano…) participam desses encontros, mas os delegados dizem que não há evidências de que ocorra qualquer interferência nas políticas implementadas. Esse confronto entre Estados Unidos e Organização Mundial da Saúde é tido como mais um exemplo de políticas em favor de grandes empresas em detrimento de questões de saúde e de meio ambiente. Outro exemplo polêmico é a redução de impostos sobre o refrigerante e a diminuição de avisos de alerta nas comidas junkies, as famigeradas porcarias que se tem por aí.

Para quem acha que é muita intromissão da Organização Mundial de Saúde, vale lembrar que, na década de 1970, houve uma queda importante na venda das fórmulas infantis nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos. Com isso, os grandes da indústria produtora de fórmulas infantis entraram com tudo nos países de baixa e média renda, com legislações mais brandas e um enorme potencial de mercado. O National Bureau of Economics Research, entidade da Universidade de Cambridge, nos Estados Unidos, publicou neste ano a estimativa das consequências da propaganda de fórmulas infantis em países de baixa renda, entre 1970 e 2011: a disponibilidade de fórmulas infantis foi responsável por aumentar a mortalidade em locais que as mães não tinham acesso à água limpa.

Quando questionado sobre o ocorrido, o Department of Health and Human Services (tradução livre: departamento de saúde e serviços humanos, algo como nosso Ministério da Saúde), explica que a intenção era diminuir barreiras para as mães alimentarem seus filhos, oferecer alternativas e não as estigmatizar por não amamentarem. Após a matéria-denúncia do The New York Times, o presidente Donald Trump também se pronunciou via Twitter, reclamando do tom da matéria e alegando apoio à alimentação infantil.  Curioso que, ao mesmo tempo em que o departamento de saúde e o presidente parecem preocupados em facilitar a alimentação dos bebês, o país norteamericano possui uma das piores políticas de licença-maternidade do mundo: a média de semanas de licença-maternidade pagas é de apenas 8 semanas (algo próximo de 2 meses).

Houve, então, alguma mudança no meio científico para justificar toda essa polêmica? Não. Os benefícios do aleitamento materno continuam os mesmos e, quanto mais se estuda, mais se tem certeza de que ele é o melhor e mais seguro alimento para os bebês. Ele continua sendo recomendado como fonte exclusiva de alimentação até o sexto mês de vida. Ao considerarmos cada indivíduo, garante-se também de que é o único alimento gratuito e renovável. Entretanto, conforme bem desenvolvido no artigo publicado na revista Lancet em 2016, em termos populacionais, aleitamento materno não sai de graça. Ele exige políticas de apoio, de promoção e de esclarecimento sobre todos os seus inúmeros benefícios e até mesmo sobre suas dificuldades iniciais. Deve-se instalar em todo o mundo um ambiente amistoso para a amamentação e essa tem que ser a principal política. Ainda que se gaste investindo em aleitamento materno, o saldo é positivo: acredita-se que, no ano de 2012, houve uma perda econômica de US$312 bilhões de dólares por curto tempo de amamentação e morte de 820.000 crianças, que poderiam ser evitadas com políticas para aumentar a taxa de amamentação mundialmente.

A preocupação em não transformar fórmulas infantis em produtos ainda mais rentáveis (as vendas de fórmulas no mundo cresceram de US$2 bilhões em 1987 para US$ 40 bilhões em 2013) e com apelo comercial se dá pela importância de priorizar o aleitamento materno, por todos os benefícios que se conhece: redução de alergias, infecções de ouvido e pulmão, diarreia, obesidade, entre tantos outros benefícios. E eles não são só do bebê: as mães retornam ao peso inicial mais rapidamente, permanecem mais tempo sem menstruar, tem menos diabetes tipo 2 e menor incidência de câncer de mama e de ovário quando comparada ao restante da população.  O leite humano, para atingir bem todos esses benefícios – não custa reforçar – deve ser exclusivo até seis meses de vida e, após, seguir como complemento à alimentação até os dois anos. Outro motivo que explica muito bem a necessidade de se restringir políticas a favor de fórmulas lácteas infantis é o seguinte: imagine o preparo de uma mamadeira, que exige uma série de cuidados de higiene, em um local onde a água não é potável.

Então, devemos banir todas as fórmulas infantis? Com certeza, não. Existem algumas contraindicações para a amamentação, sendo a mais famosa a infecção pelo HIV, em que a fórmula infantil é muito melhor para o bebê do que se usássemos o leite de vaca in natura ou o leite de caixinha, pois foi criada para causar menos alergias, ser de mais fácil digestão e possuir mais vitaminas e oligoelementos do que o leite de vaca comum. Entretanto, é compreensível também o argumento dado pelo órgão de saúde norteamericano e pelo seu presidente: às vezes pode haver falha no estabelecimento da amamentação por diversos motivos (depressão pós-parto, situações de estresse materno como internações prolongadas em unidades de tratamento intensivo neonatal, adoção, desejo de não amamentar) e as fórmulas lácteas infantis são as melhores substitutas, e para isso não precisa propaganda. O que precisamos, em todos os âmbitos, é de esforço para apoiar a amamentação, e as mães não devem estar sozinhas nessa tarefa, precisam contar com apoio e compreensão de governo e

sociedade. Termino aqui com um texto que ficou famoso nas redes sociais, que fala sobre amamentar não ser um ato de amor, de autoria de Vera, docente em Enfermagem da Universidade de São Paulo, reconhecida pelo seu grande apoio ao aleitamento materno:

“Pois é… mas amamentar é dar alimento. O melhor alimento. O mais completo e o que melhor nutre o bebê. Já amar é outra coisa. As pessoas que confundem as duas coisas, sem querer, estão fazendo um desserviço ao aleitamento, pois as mães ficam mais ansiosas, culpadas e cheias de temores. Todos sabem que uma mãe tranquila amamenta melhor. E como uma mãe pode amamentar tranqüila se ela acha que estará dando menos amor para seu bebê se fracassar? Olha o peso deste sentimento!

Quanto mais desmistificarmos o aleitamento, melhor. As sociedades que amamentam melhor, são aquelas que o fazem naturalmente, como parte de uma rotina. O bebê está com fome, a mãe dá o peito. Simples assim. Quase mecânico. Ninguém pensa muito nisso.

E as mulheres que por algum motivo não conseguem amamentar, precisam parar de sofrer. De sentir culpa. Existem muitas outras formas delas darem o suporte psicológico que o bebê precisa. É óbvio que o aleitamento é a melhor escolha, mas a partir do momento que esta escolha não pode ser feita, a mãe deve parar de sofrer.”

Referências:

  1. https://www.nytimes.com/2018/07/08/health/world-health-breastfeeding-ecuador-trump.html
  2. https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2018/jul/10/breastfeeding-is-still-political-as-donald-trumps-bullying-tactics-prove
  3. http://iwf.org/news/2806859/Paid-Leave-Won’t-Destroy-Social-Security,-But-Improve-It
  4. Kramer MS, Kakuma R. Optimal duration of exclusive breastfeeding. Cochrane Database Syst Rev [Internet]. 2012;8(8):1–131. Available from: http://www.cochrane.org/CD003517/PREG_optimal-duration-of-exclusive-breastfeeding
  5. Rollins NCNC, Bhandari N, Hajeebhoy N, Horton S, Lutter CCK, Martines JC, et al. Why invest, and what it will take to improve breastfeeding practices? 2016;
  6. Anttila-hughes J, Krauss P, Wydick B, Behrman J, Binder M, Carpenter K, et al. Mortality from Nestlé’s Marketing of Infant Formula in Low and Middle-Income Countries. NBER Work Pap Ser [Internet]. 2018;22. Available from: http://www.nber.org/papers/w24452
  7. Bartick M, Reinhold A. The Burden of Suboptimal Breastfeeding in the United States: A Pediatric Cost Analysis. Pediatrics [Internet]. 2010;125(5):e1048–56. Available from: http://pediatrics.aappublications.org/cgi/doi/10.1542/peds.2009-1616

 

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