Por que se está falando tanto de sarampo?

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Você já percebeu o quanto tem se falado ultimamente do #sarampo? Essa doença, causada por um vírus altamente contagioso, transmitido por gotículas de saliva, ainda é responsável por muitas mortes infantis ao redor do mundo, mas estava um tanto sumida aqui do Brasil. O sarampo caracteriza-se por iniciar parecido com um quadro de resfriado comum, com febre, coriza, tosse, conjuntivite. É típica a evolução com feridas dentro da boca, chamadas de manchas de Koplik e, em seguida, com um rash na pele, ou seja, manchas avermelhadas pelo corpo. A preocupação maior são com as possíveis complicações, que ocorrem em até 40% dos casos, preferindo crianças menores de 5 anos ou adultos maiores que 20 anos, desnutridos, gestantes e imunodeprimidos (pessoas com alguma falha no sistema imunológico em se defender adequadamente contra doenças). Em países em desenvolvimento, pode ser fatal em até 25% dos casos.

Em 2016, o país recebeu um certificado da Organização Pan-Americana de Saúde de eliminação do vírus, atingido graças à boa cobertura vacinal e medidas eficientes de bloqueio nos casos de sarampo vindo de outros países.  Contudo, neste momento, os estados do Amazonas e de Roraima vivem uma condição chamada de surto, que significa um aumento do número de casos de uma determinada doença, em um determinado espaço e tempo. Até o dia 20 de julho deste ano, foram confirmados 444 casos de sarampo no Amazonas (a maioria deles na capital Manaus) e 216 em Roraima. De janeiro a maio de 2018, foram contabilizadas duas mortes devido ao sarampo. Através da identificação do genótipo do vírus, conseguiu-se verificar que os casos são relacionados à importação do vírus da vizinha Venezuela, graças ao aumento do número de imigrantes. Antes de colocar toda a culpa nos venezuelanos, vale lembrar que o sarampo é uma doença evitável com a cobertura vacinal adequada. O Ministério da Saúde está intensificando as campanhas para vacinação em todo o país, além de fortalecer a vigilância nos estados em surto e realizando vacinação de bloqueio. Apesar do aumento de casos em nosso continente, ainda somos considerados livres de endemia (quando uma doença ocorre em determinado local por um longo período) de sarampo, e as epidemias são relacionadas a casos importados de outros países em áreas com baixa vacinação.

A vacina contra o sarampo existe desde 1960, é considerada altamente efetiva, segura e barata. Embora tenha ocorrido queda importante do número de casos nos últimos anos (redução de 550.100 mortes no mundo em 2000 para 89.780 em 2016 [Fonte: World Health Organization]), segue a preocupação com a doença em países de baixa cobertura vacinal e com grande número de crianças desnutridas e com deficiência de vitamina A, principalmente em África e Ásia, onde a doença é endêmica. A Venezuela é o único país do continente sul-americano que possui uma incidência de sarampo considerada crítica: mais de 50 casos por um milhão de habitantes, durante o período de um ano. O restante dos países americanos apresenta incidência menor que um caso por milhão de habitantes nesse mesmo período.

A melhor maneira de evitar uma epidemia do sarampo é aumentando a cobertura vacinal. Ela é considerada adequada quando 95% das crianças com menos de um ano estão vacinadas, conforme recomendação da Organização Mundial de Saúde. No ano de 2017, o Brasil teve cobertura vacinal de 85,2% na primeira dose (tríplice viral – sarampo, caxumba e rubéola) e 69,9% na segunda dose (tetra viral – sarampo, caxumba, rubéola e varicela). Devido à fácil transmissibilidade, fica o alerta para todo o país e, mais do que nunca, o esforço para aumentar a cobertura vacinal. Ainda existem cidades no país com cobertura inferior a 50% das crianças com um ano de idade. Para quem acredita que não é possível retomarmos à época em que todos conheciam alguém que morreu de sarampo, vale lembrar o caso da varíola: nos Estados Unidos, em 1840, quando nem éramos tão cosmopolitas, houve importante queda nos casos de varíola, após introdução da vacina. Entretanto, houve uma recomendação de alguns médicos de que essa não era segura e, em 30 anos, ela ressurgiu com força.

Se a vacina é gratuita, ofertada amplamente nas unidades básicas de saúde, por que a cobertura ainda é tão baixa? Não tenho capacidade técnica de aprofundar em questões sociais e epidemiológicas, mas não posso escapar da questão da opção pela não vacinação e da hesitação vacinal. As vacinas contra pneumococo, meningococo, sarampo, difteria e hemófilo, por exemplo, contribuíram amplamente para a redução da mortalidade infantil, além de redução de morbidade (crianças ficando menos doentes). Assim como tudo na vida, mesmo as vacinas podem ter alguns “contras”, como dor local, febre, mal-estar e, em alguns casos, convulsão. O boato da relação entre vacinação e autismo é falso – vale aproveitar para exemplificar com a questão do autismo e da vacina o conceito de pós-verdade: houve um artigo que correlacionou erroneamente a vacina tríplice viral com o autismo. A conceituada revista Lancet, que publicou em 1998 esse artigo, fez a devida retratação, mas as consequências e a dúvida permanecem até hoje. Quando se coloca na balança os prós e os contras, fica claro que ela pende para o lado da vacinação. O que tem ocorrido em países desenvolvidos e em desenvolvimento é uma recusa vacinal por confiar na ampla cobertura. Por exemplo, eu não vacino meu filho porque ele só convive com crianças vacinadas, então ele está seguro. Países como os Estados Unidos, na tentativa de evitar situações como essa, passaram a exigir esquema vacinal completo para admissão escolar. É possível, entretanto, em alguns estados, apresentar justificativas para recusa vacinal, desde motivos médicos até crenças pessoais. Entre 1991 a 2004, a recusa por esse motivo cresceu de 0,99% para 2,54%. Esse número parece pequeno, uma vez que está diluído em um país inteiro, porém, ele representa conglomerados regionais de áreas que atingem 10% de recusa por causas não-médicas. Além da proteção individual dada com a vacina, outra questão importantíssima e motivo suficiente para vacinação é a proteção de pessoas que, por idade menor que um ano e por razões médicas, como imunodepressão, não podem receber vacinas feitas de microorganismos vivos atenuados, como é o caso da vacina tríplice viral e tetra viral.

Alguns pais preferem vacinar seus filhos seguindo calendários diferentes, com maior intervalo entre as vacinas e aplicação de menos vacinas ao mesmo tempo, advogando melhor resposta e menos estresse ao organismo. Enquanto se sabe bem que não vacinar aumenta significativamente o risco de infecções graves como o sarampo (até 35 vezes maior), a prática de utilizar intervalos maiores entre as vacinas ainda tem resultados desconhecidos. A lógica e o conhecimento da fisiopatologia levam a crer que, ao atrasar as vacinas, deixamos as crianças expostas por mais tempo, justo no período em que as infecções podem ser mais graves.

Um estudo norte-americano encontrou o seguinte dado: pais que recusam as vacinas, comparados aos pais que vacinam seus filhos, acreditam mais no baixo risco de contrair a doença e também de que as doenças prevenidas não são graves. As equipes de saúde servem como a principal fonte de informação aos pais, o que coloca a nós, profissionais de saúde, a obrigação de nos mantermos atualizados e com capacidade de informar os fatos sobre as vacinas, bem como de ouvir e compreender os motivos para a hesitação sobre vacinação. Quando corretamente esclarecidas as dúvidas, o consentimento para a vacinação ocorre na maioria das vezes. Quanto menos informados os pais estiverem, maiores as chances de procurarem informações sensacionalistas ou até mesmo mentirosas na internet.


Para entender melhor desde o surgimento até o funcionamento das vacinas, assista ao vídeo produzido pelo TED-Ed (Technology, Environment and Design – Educational) Como as vacinas funcionam?

Confira o esquema vacinal:

  • Crianças de 12 meses até 5 anos de idade: vacina aos 12 meses com tríplice viral e aos 15 meses com tetra viral.
  • Crianças entre 5 anos e 10 anos incompletos, que não receberam as vacinas conforme indicado acima: duas doses da vacina tríplice viral, com intervalo de no mínimo 30 dias.
  • Criança com 10 anos completos a adultos até 30 anos incompletos: duas doses da tríplice viral, com intervalo de no mínimo 30 dias.
  • Adultos de 30 anos completos a 50 anos incompletos: uma dose da vacina tríplice viral.
  • Não são vacinadas pessoas de 50 anos ou mais.

Curiosidade (e muito importante para quem for estudar o tema): em inglês, sarampo é chamado de measles e também de rubeola. A doença rubéola, em inglês, é chamada de rubella.

Palavras-chave: #sarampo, #vacina, hesitação vacinal.

Categoria: sarampo

Referências:

  1. McKee C, Bohannon K. Exploring the Reasons Behind Parental Refusal of Vaccines. J Pediatr Pharmacol Ther [Internet]. 2016;21(2):104–9. Available from: http://www.jppt.org/doi/10.5863/1551-6776-21.2.104
  2. Omer SB, Salmon DA, Orenstein WA, Halsey N. Vaccine Refusal, Mandatory Immunization, and the Risks of Vaccine-Preventable Diseases. 2009;
  3. Bester JC. Measles and Measles Vaccination A Review. JAMA Pediatr.2016;170(12):1209–1215. doi:10.1001/jamapediatrics.2016.1787
  4. http://www.who.int/immunization/monitoring_surveillance/burden/vpd/surveillance_type/active/Global_MR_Update_June_2018.pdf?ua=1
  5. Dynamed: Measles http://web.b.ebscohost.com/dynamed/detail?vid=2&sid=e44599f4-915e-481d-94d8-7a93e8e4329c%40sessionmgr120&bdata=Jmxhbmc9cHQtYnImc2l0ZT1keW5hbWVkLWxpdmUmc2NvcGU9c2l0ZQ%3d%3d#db=dme&AN=116399&anchor=Complications-and-Prognosis
  6. https://www.cdc.gov/mmwr/pdf/wk/mm6414.pdf
  7. Calendário vacinal Ministério da Saúde http://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/vacinareproteger/
  8. A história que deu origem ao mito da ligação entre vacina e autismo https://www.bbc.com/portuguese/geral-40663622
  9. Secretaria de Saúde reforça importância da vacina contra o sarampo http://www.pmf.sc.gov.br/noticias/index.php?pagina=notpagina&noti=19806
  10. Ministério da saúde atualiza casos de sarampo no Brasil http://portalms.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/43868-ministerio-da-saude-atualiza-casos-de-sarampo-no-brasil

 

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